Mais um forte indício -e já começa a haver muitos- de que André Ventura poderá não passar de uma fraude:
«Segundo defendia André Ventura no trabalho académico, as políticas antiterroristas são “medidas restritivas e altamente intrusivas das liberdades dos cidadãos, que nunca seriam possíveis num contexto normal”, e que encontram o seu fundamento apenas “no medo”, o que provoca uma “alta conflitualidade social e um aumento da suspeição em relação a determinadas comunidades”. Nesse contexto, André Ventura, académico, mostrava-se então preocupado com a discriminação e a “estigmatização” das minorias e alarmava-se com a expansão dos poderes policiais, criticando nomeadamente as detenções “sem provas concretas”.
(...)
O autor da tese é o mesmo que, agora, foi eleito deputado à Assembleia da República, pelo Chega, com um programa eleitoral que se assume como “partido securitário” e da “direita identitária”, que defende “uma política comum de defesa contra a invasão maciça dos países do sul do mediterrâneo”, e que defende a abolição das “autorizações de residência para protecção humanitária”. Mais: é o mesmo que, em 2016, logo após o ataque terrorista de Julho em Nice, defendia “um olhar diferente sobre as comunidades islâmicas na Europa”. “Poderemos fazer qualquer prevenção que seja quando estas comunidades são, em alguns países, de milhões de habitantes ou, em algumas cidades, 25% da população? Creio que não… e por isso mesmo não vejo outra solução que não seja a redução drástica da presença islâmica na União Europeia”, escrevia na altura no Facebook.
Questionado pelo Diário de Notícias sobre as aparentes contradições, André Ventura rejeita a ideia. “A minha tese não é uma questão de opinião, é uma questão de ciência”, disse. “Sempre distingui muito bem a parte científica da parte opinativa”, acrescentou ainda quando questionado por aquele jornal.»
Mas então a "ciência" feita pelo Doutor André Ventura é uma coisa, enquanto a "opinião" do político André Ventura é outra? Isso não é minimamente coerente, senhor deputado!...
No tal artigo do DN mencionado acima pode ler-se ainda o seguinte:
«Por exemplo criticar a estigmatização dos muçulmanos por serem "associados de modo superficial ao terrorismo", "políticas de controlo imigração dirigidas a muçulmanos" e "a discriminação das pessoas com base na sua origem e nas suas características étnicas e religiosas", como fez enquanto académico, em nada se opõe a defender a "redução da presença islâmica na Europa", o estabelecer de "uma lista de países seguros na origem" ou a "proibição do ensino do Islão na escola pública."»
Também aqui Ventura é manifestamente incoerente: reduzir a presença islâmica na Europa é uma "política de controlo da imigração dirigida a muçulmanos". A primeira implica a segunda, por muito que Ventura diga o contrário.
«[André Ventura] Explica: "Não vejo contradição porque uma coisa é criticar uma estigmatização judicial - que houve nos processos de Guantánamo, por exemplo, e foi até reconhecido pelo Congresso dos EUA, é puramente científico -- e outra uma posição política de se dizer 'para o futuro devemos ter em conta que a presença de pessoas oriundas de alguns países onde o fundamentalismo islâmico é mais forte deve ser controlada.'"
Agregar toda a comunidade islâmica europeia ao fundamentalismo islâmico e portanto ao terrorismo não é pois estigmatizar. É só, diz, "uma questão de controlo: se em determinadas cidades europeias uma população é 25% ou mais de 20% islâmica nós temos muita dificuldade em controlar, fazer filtragem."»
Mais uma vez, controlar a população islâmica implica necessariamente "estigmatização judicial". Ninguém pode ser deportado sem ser que tal seja devidamente autorizado e legitimado pela Justiça. Ventura bem pode repetir que aquilo que estava em causa na sua tese de doutoramento era Guantánamo, mas a verdade é que aquilo que está em causa AGORA é como lidar com a incompatibilidade entre o Islão e o Ocidente.
«Do mesmo modo, afirmar na tese que "Portugal é um dos países mais pacíficos do mundo" não colide em nada com clamar no programa do Chega que é "um país com insegurança crónica".
"Nada a ver", comenta. "Uma coisa é a análise dos relatórios, e nos relatórios, é evidente, Portugal é dos mais pacíficos. Outra coisa é a percepção real e os números reais que as pessoas têm do ponto de vista da percepção e da existência."»
Então é necessário explicar porque é que existe uma discrepância entre os relatórios e a "percepção real". Porque só um deles, relatórios ou "percepção real", corresponde efectivamente à realidade!
«Como assim? Os números não estão nos relatórios? Quando escreveu que Portugal é um dos países mais pacíficos do mundo, portanto dos mais seguros, afinal disse algo em que não acredita? "Eu politicamente também digo que nos relatórios Portugal é um dos países mais pacíficos do mundo, está ali. Outra coisa é a percepção que eu tenho e que os cidadãos têm. Uma coisa é a percepção científica das coisas e outra coisa a análise científica dos dados."»
Não, Doutor Ventura. Vai ter de me desculpar, mas não existe nenhuma "percepção científica". Os cientistas não se baseiam em percepções, os cientistas baseiam-se em factos concretos e demonstráveis. Das duas uma, (1) ou o Doutor Ventura acredita que os relatórios são uma aldrabice -e, nesse caso, deve dizê-lo abertamente-, ou (2) o Doutor Ventura acredita que os relatórios estão correctos, mas prefere explorar o sentimento ilusório de insegurança do eleitorado. As duas coisas ao mesmo tempo é que não pode ser, porque elas não são conciliáveis!
Claro que há sempre a possibilidade de Ventura acreditar que a insegurança é mesmo real, mas escreveu o que entendeu ser necessário para que a sua tese de doutoramento fosse aprovada. Esta estratégia será aceitável numa lógica de "fazer o jogo do sistema em vez de ir contra o sistema"...
«E claro, quando o André Ventura académico usou a expressão "populismo penal", descrevendo-o como "o processo pelo qual os políticos se aproveitam, e usam para sua vantagem, aquilo que crêem ser a generalizada vontade de punição do público", não estava a falar de programas como o do Chega e líderes políticos como ele próprio. Porque "um populista é alguém que usa de forma abusiva os anseios de uma população para manipular as suas aspirações e para conseguir triunfar... Querermos uma justiça mais forte é populismo? Isto é o sentimento comum, básico, de qualquer cidadão que se indigna perante estas coisas."»
Portanto, quando os outros políticos o fazem, é populismo. Quando o André Ventura o faz, não é... onde é que eu já vi isto?
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Ver também:
Lembrete para os nacionalistas que votaram no Chega
A ouvir: entrevista de André Ventura à Antena 1









