Esta posta poderá ser algo surpreendente para os leitores do TU. Porque havia um nacionalista de homenagear um político de centro-direita, um homem do sistema que chegou a ser Ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo socialista?... Alguém que, por exemplo, chegou a dizer coisas como esta:
«De cada vez que uma pessoa de extrema-direita me vira a cara, eu
sinto-me honrado. Quando me lembro de que em 1974-75 havia quem me
chamasse fascista, dá-me uma certa vontade de rir… e faz-me ficar
satisfeito de cada vez que um fascista corta relações comigo!»
É deveras irónico, porque por incrível que pareça, é em grande parte ao Prof. Freitas do Amaral que eu devo não apenas o meu fascínio por D. Afonso Henriques, mas também por Portugal.
Passo a explicar. Há muitas biografias do nosso primeiro rei, D. Afonso Henriques, o Pai Fundador. As mais célebres e respeitadas são talvez as do historiador José Mattoso e do jornalista Mário Domingues. Mas há uma, em particular, que mudou para sempre o meu entendimento do que é ser português e do porquê valer a pena lutar por Portugal:
Escrita numa linguagem acessível e de uma forma sucinta, esta biografia afonsina da autoria do Prof. Amaral é diferente das outras porque, mantendo o rigor histórico e as dúvidas que persistem sobre determinados episódios da vida de El-Bortukali, ela consegue realçar vários aspectos que são geralmente descurados pelos outros autores:
1. Portugal não nasce da luta contra os mouros; ele legitima-se na luta contra os mouros, mas Portugal nasce do desejo das elites portuguesas se libertarem do domínio das elites galaico-leonesas.
2. O rei Afonso foi educado para ser apenas um peão nessa luta, mas recusou reduzir-se ao papel a que ambas nobreza e clero portugueses pretendiam confiná-lo; e esta é de longe a sua maior vitória, a sua maior conquista: Afonso foi, sem sombra de dúvida, senhor do seu próprio destino.
3. Ao longo da sua vida, o rei Afonso viu-se muitas vezes obrigado a fazer e desfazer acordos, dar o dito por não dito e até faltar à sua palavra. Algo que muitos nacionalistas condenarão como "imoral" mas que, como Maquiavel explicou, é imprescindível a quem quiser vencer neste mundo e colocar a sua nação e o seu povo acima de tudo o resto. Porque a honestidade só é uma virtude entre gente honesta. Entre vigaristas -que é aquilo que a nobreza e o clero europeus sempre foram-, um homem honesto passa a ser apenas mais uma vítima. E se há coisa que o rei Afonso nunca foi, foi precisamente uma vítima.
Até ler este livro, eu encarava o rei Afonso apenas como uma figura histórica importante, um guerreiro/monarca corajoso que se bateu contra a moirama e contra os espanhóis (sim, eu sei que na altura ainda não havia Espanha, mas vocês percebem o que eu quero dizer). Mas ele foi muito mais do que isso. Aliás, os mouros e os espanhóis nem sequer foram os seus maiores inimigos. Afonso foi, acima de tudo, um homem que se libertou do destino de servidão e mediocridade a que todos à sua volta o queriam condenar, a começar pelos seus pares portugueses.
E esta, meus caros amigos e leitores do TU, é a essência de um verdadeiro herói. Poucos podem libertar-se das prisões construídas para o corpo, mas são ainda menos os que conseguem libertar-se das prisões concebidas para a mente e para a alma humana. É que, antes de se libertarem da Lei da Morte, os heróis têm de se libertar primeiro dos vícios da sua própria gente, bem como da sua propensão humana para o conformismo. Felizmente, nenhuma dessas prisões pôde conter o espírito indomável de Afonso I de Portugal. Que é, afinal, o verdadeiro espírito português!
É ao Prof. Freitas do Amaral que eu devo ter finalmente compreendido toda a grandeza do nosso primeiro rei e dos seus companheiros, de Fuas Roupinho a Geraldo Geraldes, passando pelo lendário Martim Moniz.
Diogo Freitas do Amaral (1941-2019)
Ainda valerá a pena lutar por Portugal? Freitas do Amaral acreditava que sim, precisamente porque o exemplo do primeiro rei é intemporal. Antes e depois dele, os portugueses, os verdadeiros portugueses, nunca aceitaram ser governados por outros povos, mesmo quando atravessaram longos períodos de submissão (império romano, domínio filipino, etc.). Já Teófilo Braga tinha percebido isso no seu "Viriato - Ensaio Sobre a Alma Portuguesa".
Ainda será racional pensar assim no actual mundo globalizado? Eu julgo que sim, julgo até que é mais racional do que nunca. Viver num mundo pequeno, na tal "aldeia global" a que os cosmopolitas aludem constantemente, não pode significar abdicarmos da nossa soberania e do nosso património material e imaterial. Tal como é possível respeitar os outros sem deixarmos de nos respeitar a nós próprios, também é possível viver com os outros sem termos de lhes ceder o que é nosso. Podemos sempre partilhar sem termos de renunciar. E quem disser o contrário, é porque no-lo quer roubar!
Voltando a Freitas, embora não aprovando o seu percurso político, tenho de louvar a sua compostura e elevação consistentes. Também tenho poucas dúvidas de que Portugal seria hoje um pouco melhor se Freitas tivesse sido Presidente da República em vez do oportunista Mário Soares. Estou convencido que, ao contrário do 'bochechas', o Prof. Freitas do Amaral amava genuinamente o nosso país.
Até sempre, Professor. Muito obrigado pela lição. Que vivas para sempre!