Só resta saber quantos jovens millennials e da geração z é que pensarão como o autor do texto que reproduzo a seguir, de seu nome Vincente Teles Baltazar, estudante do ensino secundário. Não se deixem enganar pela sua falta de currículo: o rapaz ainda é novinho, mas percebe melhor o que se está a passar do que a sonsa da Cristas ou o bilderberguer Rio Risonho!
Um muito obrigado! ao Nuno por nos ter trazido os escritos do Vicente aqui ao TU!
«Acção afirmativa num mundo académico pós-modernista/neomarxista

Hoje em dia, os chamados “progressistas” estão a tentar voltar a categorizar os indivíduos e a sociedade. Defendem a política de identidade, de maneira a alcançar o seu objectivo supremo, a "justiça social".
Os factos são coisas teimosas, e quaisquer que sejam os nossos desejos ou inclinações,
ou os ditames das nossas paixões, estes não podem alterar o estado dos factos e das provas.
-John Adams, 2º Presidente dos Estados Unidos da América»
Relembrando aos mais distraídos: o pós-modernismo é a doutrina sociológica desenvolvida na segunda metade do séc. XX segundo a qual não existem verdades absolutas, colocando em causa a noção de racionalidade, de validade do conhecimento científico e até da própria realidade objectiva; já o neomarxismo é a extensão dos conceitos de luta de classes desenvolvidos por Marx, em particular da sua dicotomia cretina "proletariado vs. burguesia", ao contexto sociocultural das nações, através da incorporação da teoria crítica do marxismo cultural, da psicanálise e até do existencialismo. O resultado final é que os neomarxistas encaram a luta de classes como não apenas uma luta entre proletários e burgueses mas sobretudo entre "classes com poder" e "classes sem poder": ricos vs pobres; brancos vs negros; nativos vs imigrantes; cristãos vs muçulmanos; mulheres vs homens; etc. O neomarxismo é uma estupidez completa por motivos óbvios: o poder é circunstancial, não depende da raça, nem do sexo, nem da religião das pessoas.
Voltando ao texto:
«Neste ensaio, defenderei a tese de que a acção afirmativa (referida,
muitas vezes, através da expressão “quotas para entrada nas
universidades”) é moralmente errada, injusta e discriminatória e,
portanto, não deve ser implementada em Portugal.
Acção afirmativa,
termo cunhado em 1961 pelo então presidente dos EUA, John Kennedy, é
entendida pelos seus apoiantes como discriminação positiva a favor de
minorias historicamente oprimidas e deve ser usada como arma para
alcançar a equidade. A acção afirmativa, posta em prática actualmente nos
EUA, consiste, em sentido lato, no estabelecimento de quotas de admissão
nas universidades para minorias historicamente desfavorecidas.»
Reparem que o Vicente escreve "equidade" e não "igualdade". E escreve muito bem, porque a diferença entre os dois conceitos é extremamente importante: por igualdade, no contexto político, entende-se o acesso universal às mesmas oportunidades, o haver as mesmas oportunidades para todas as pessoas. No entanto, a equidade consiste na obtenção dos mesmos resultados para todas as pessoas. Por exemplo, para haver equidade numa turma de alunos, é preciso que todos os alunos dessa turma tenham as mesmas notas, a todas as disciplinas! Não é preciso grande inteligência para perceber que a igualdade é desejável, enquanto a equidade é abominável!
«No entanto, esta noção é baseada numa miríade de falácias, perpetuada pelos académicos pós-modernistas/neomarxistas[1] que, actualmente, dominam as universidades norte-americanas.»
E também as universidades europeias e sul-americanas, caro Vicente!...
«Muitos
dos que estão a ler este ensaio pensarão que as ideias marxistas são
coisa do passado, exaltadas apenas, por volta da dupla 25 de Abril/1º de
maio. Este equívoco é compreensível, contudo, não fosse os novos
apologistas de Marx se terem camuflado sob o vulto do pós-modernismo,
movimento político-cultural apregoado, entre outros, por uma grande
parte dos millennials. Mas como e porque aconteceu o aparente cisma?
Na
década de 1960, em França, progressivamente se tomava conhecimento dos
horrores levados a cabo pela implementação da ideologia marxista (China,
65 milhões de mortos; URSS, 20 milhões de mortos; Coreia do Norte, dois
milhões de mortos; Camboja, dois milhões de mortos; etc.).[2]
Esta situação levou a que os filósofos marxistas franceses da época,
porventura o mais conhecido Jean-Paul Sartre, tivessem de camuflar a sua
perspectiva. Para tal, efectuaram uma troca simples: a clássica
classificação marxista de opressor/oprimido foi alterada. Deixava de ser
a burguesia contra o proletariado para passarem a ser os homens brancos
contra todos os outros. Estava criado o neomarxismo e, consigo, a
política identitária.[3]»
Em rigor, foram os marxistas da Escola de Francoforte quem primeiro alargou a dicotomia "proletariado vs. burguesia" para "classe sem poder vs. classe com poder", como referi mais acima. O que, por definição, redunda de facto em "homem branco vs. todos os outros", como o Vicente bem observou. Mas é importante percebermos que o problema já vem da primeira metade do séc. XX.
«Discriminação positiva é outro dos termos imaginados pelos pensadores neomarxistas e que está na base da implementação de programas como a acção afirmativa, mas não só; veja-se o Estado-Providência no qual este termo se encontra mascarado através da designação de princípio de Solidariedade Social. Porém, a maior falha encontra-se no próprio termo: “discriminação” e “positiva” são incompatíveis:
Guerra é Paz
Liberdade é Escravidão
Ignorância é Força
É este o famoso slogan do INGSOC (Socialismo Inglês), partido que controla a Oceânia na famosa obra “1984” de George Orwell. À semelhança do Big Brother também os pensadores pós-modernistas/neomarxistas tentam controlar a nossa linguagem com termos completamente orwellianos, como “acção afirmativa” e “discriminação positiva”. Esta táctica devia ser particularmente preocupante para todos aqueles que apoiam a liberdade, já que sabemos que o controlo da linguagem é o controlo do pensamento ou como diria o INGSOC “quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado.”[4]»
É por isso que, quando me aparecem nacionalistas a falar em "patriarcado", eu fico logo muito preocupado: significa que não só não entendem a parte que sublinhei a cor vermelha, como já engoliram, digeriram e incorporaram na sua mundivisão a falsa narrativa engendrada por quem controla o presente.
«Poderia argumentar que a acção afirmativa é pura e simplesmente inconstitucional:
Constituição da República Portuguesa – Artigo 13.º
Princípio da igualdade
1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado*, beneficiado*,
prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em
razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem,
religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação
económica, condição social ou orientação sexual.»
É curioso, eu próprio usei este argumento aqui no TU numa conversa que mantive com o Silvino de Portugal. Será que o jovem Vicente lê este blogue? 😜
«No entanto, o propósito deste ensaio não é abordar o tema de um ponto de vista jurídico. Martin
Luther King Jr. proferiu, no seu famoso discurso de 28 de agosto de 1963,
que “[tinha] um sonho que um dia os [indivíduos] pudessem ser julgados,
não pela cor da pele, mas pelo conteúdo do carácter”. As suas palavras
são tão actuais como o eram há 56 anos, num mundo hoje conduzido pela
política de identidade. De facto, estamos a assistir a um retorno da
segregação racial, patrocinado pelo neomarxismo: ou não são as políticas
de acção afirmativa injustas para os indivíduos prejudicados em
detrimento de outros, simplesmente por terem nascido com uma certa cor
de pele, facto que não conseguem controlar.»
Exacto, a acção afirmativa é intrinsecamente racista, porque assenta na falácia de que todos os indivíduos de uma determinada raça são beneficiados ou, como dizem os tarados dos guerreiros da (in)justiça social, "têm privilégio".
«Por que razão terá um estudante branco de ter melhor nota de candidatura que um estudante cigano? Os defensores de tais políticas afirmam que certas raças foram/têm sido historicamente prejudicadas e que, por isso, os indivíduos que por mero acaso nasceram com essa cor de pele precisam de ajuda para entrar na universidade.[5]
Em primeira análise, este argumento parece-me ser racista, mais que não seja para com os indivíduos “historicamente oprimidos”. Não me parece que uma pessoa, no século XXI, seja menos capaz de ter um bom aproveitamento escolar devido à sua raça ou etnia. Aliás, porque é que o PS não propôs quotas para indivíduos com ascendência asiática, que são uma minoria étnica em Portugal? É bastante óbvio: porque estes têm bom aproveitamento escolar. Torna-se claro que as quotas são um instrumento para legitimar e prolongar o insucesso e o facilitismo.»
Também, mas não só: as quotas são sobretudo um instrumento para remover os homens brancos do poder: privá-los da formação académica, dos bons empregos, das forças de segurança, dos cargos públicos, etc.
«A pergunta que temos de fazer é “que características é que definem a nota que obtemos no ensino secundário e, portanto, se entramos na universidade ou não?”. Eu respondo que são o empenho, inteligência, autonomia, esforço, dedicação, competência, entre outros. E não outro qualquer factor físico.
É realmente estonteante as incoerências com que nos deparamos ao tomar conhecimento dos argumentos dos nossos opositores. Um tema tão importante como este deveria, com toda a certeza, contar com a influência de filósofos/pensadores quer de um lado como do outro. Do lado da minha tese destacaria Jordan Peterson, Ben Shapiro e Thomas Sowell, este último apresentando um argumento particularmente distintivo.»
O esquerdalho odeia o mérito, porque o mérito cria automaticamente as tais classes que eles abominam. É incontornável, os neomarxistas odeiam a competência e sobretudo a inteligência, porque as pessoas inteligentes tendem a desenrascar-se na vida, a rejeitar a cultura de vitimização e a mundivisão infantil da luta de classes. O marxismo e os seus derivados consistem, uma vez despidos da sua pretensiosidade científica, na mera exaltação da inveja e do ressabiamento, duas das emoções mais poderosas do ser humano. Mas não haja ilusões: os capitalistas também só gostam de competência e de inteligência até um determinado ponto, quando se deparam com alguém realmente inteligente e que não pode ser comprado, decretam imediatamente que essa pessoa constitui um perigo para as suas aspirações... eer... perdão, "para a sociedade".
«No outro campo, não tenho receio de dizer que não existem pessoas que se possam chamar de filósofos. Em minha opinião, são ideólogos. Existirá outro nome para pessoas que, apesar de contradições tão graves, consigam continuar a apregoar a sua doutrina? De facto, indivíduos como deputados do PS e Bloco de Esquerda e membros de “delegações” do BE, como a ILGA, SOS Racismo, OMAR e MDM não passam de activistas que pretendem passar a sua agenda interseccional[6].»
É realmente muito corajoso, por parte do Vicente, escrever isto -que é inteiramente verdade- e dar a cara. Espero bem que, daqui a uns anos, não deixem de lhe dar emprego por causa disto.
«Estes sujeitos afirmam que devemos ter diversidade de pensamento nas universidades, de maneira a cada “grupo social” ser representado justamente. No entanto, não são capazes de apresentar um único estudo ou outro documento que prove que, digamos, um homem cigano tenha um modo de pensar diferente de um homem branco ou que pense sequer em assuntos distintos. De facto, a única diferença biológica a esse nível dá-se entre sexo masculino e sexo feminino.[7]»
Esse é outro problema crónico do neomarxismo: mil teorias, zero evidências. Aliás, as evidências disponíveis mostram que o marxismo falhou espectacularmente onde quer que tenha sido implementado. Não, a Escandinávia não é socialista. Tenham paciência, não é!
«O princípio da equidade (igualdade de resultados) afirma que, por exemplo, as mulheres deviam representar 50% dos canalizadores ou que metade dos educadores de infância sejam homens. Desenganem-se aqueles que pensam que o sistema de quotas ainda não chegou a Portugal: veja-se a Lei da Paridade, onde tem de haver um mínimo de 40% de mulheres e 40% de homens nas listas apresentadas por partidos políticos a eleições[8]. Na realidade, surpreende-me o facto do número não ser 50%. Estará 20% reservado para não-binários?»
Por favor, não lhes dês ideias, Vicente...
«O argumento essencial que contradiz as teorias da equidade, justiça social e demais terminologias pós-modernistas afirma que o desejável é termos hierarquias baseadas na competência. Estas hierarquias são, pois, o melhor sistema possível para a sociedade se auto-organizar e que mais efectivamente asseguram o progresso humano. Partilho totalmente desta opinião. Na realidade, foram estas hierarquias que construíram a civilização ocidental e, portanto, as universidades.
No entanto, os ideólogos pós-modernistas pretendem destruir as bases da civilização que proporcionou ao mais alto nível a liberdade, procura da felicidade, prosperidade e que mais massas levantou da pobreza em países que adoptaram o seu sistema económico, o capitalismo, como por exemplo a Índia. O objectivo neomarxista é transformar as universidades, instituições que deviam transmitir todas as conquistas da civilização ocidental, em completos campos de doutrinação.»
Objectivo que, em grande medida, foi alcançado, sobretudo no domínio das "ciências" sociais e humanas.
«Como tenho vindo a demonstrar ao longo das últimas linhas, a acção afirmativa contribui para o fortalecimento de estereótipos, através do pensamento de que todas as pessoas de certa raça são “estúpidas” e destrói a ideia da meritocracia (as pessoas mais aptas devem receber os melhores cargos ou posições) que, por sua vez, dá origem às hierarquias.
Thomas Sowell, renomado economista [e "jovem", nunca é demais lembrar], apresentou um argumento que se concentra não na moralidade da implementação da acção afirmativa, mas antes, nos seus efeitos, ou seja, um argumento empírico. Sowell afirma que os estudantes que precisariam, em condições naturais, de ter uma média igual ou superior ao último candidato aceite em, digamos, Harvard, vão ser prejudicados se entrarem com notas inferiores. Isto acontece porque esses estudantes não estarão preparados para enfrentar o ambiente extremamente competitivo e a carga lectiva de uma instituição de topo.
Ora, esta situação originará descontentamento para o estudante porque este não se identificará com os outros colegas e, por isso, provavelmente, desistirá do curso. Conclui-se, portanto, que se esses estudantes tivessem sido tratados em condições de igualdade teriam entrado noutra universidade com menos prestígio, mas onde se sentiriam integrados e pudessem dar continuidade ao seu percurso académico e, posteriormente, profissional.[9] Do mesmo modo, possíveis empregadores não contratarão estudantes excepcionais do mesmo grupo étnico para o qual foram definidas quotas porque terá a dúvida se este entrou na universidade por mérito próprio.[10]»
A menos que os neomarxistas dêem o passo seguinte nas suas aspirações criminosas, que é impor quotas nas empresas! Parece impossível? Também o casamento guei, a adopção guei, as quotas nos partidos políticos e a acção afirmativa o pareciam ser, há apenas algumas décadas atrás! Aliás, a Comissão Europeia já tentou exigir ao estados-membros que os conselhos de administração das empresas cotadas em bolsa tivessem pelo menos 40% de mulheres! Agora que o bêbado Juncker foi substituído pela Ursula von der Leyen, uma feminista convicta, é muito provável que a Comissão volte a tentar exigir algo do género.
«Em suma, penso que se deve voltar ao pensamento desenvolvido por John Locke de que todos os Homens são iguais perante a lei[11] e têm capacidades inatas que lhes permitem a aplicar razão.
Hoje em dia, os chamados “progressistas” estão a tentar voltar a categorizar os indivíduos e a sociedade. Defendem a política de identidade, de maneira a alcançar o seu objectivo supremo, a "justiça social".
No entanto, quem preza a liberdade e a prosperidade que vivemos no Ocidente deve fazer frente a esta ideologia. Além disso, devemos tratar cada ser humano como um indivíduo único, que tem características próprias que definem o seu curso de vida. Um dos aspectos do seu curso de vida é, então, a entrada na universidade que deve ser independente de características físicas que o indivíduo não controla. Nem o Estado nem a reitoria de uma universidade pública ou privada deve através de critérios arbitrários que nada têm que ver com as capacidades de um indivíduo definir se este entrará no ensino superior.
Este ensaio foi elaborado no âmbito de um trabalho escolar e publicado à data de hoje, dia 30 de Julho de 2019, no site do Jornal Económico.»
[1] Jordan Peterson explica o fenómeno do pós-modernismo/neomarxismo
[2] Courtois, Stéphane, O Livro Negro do Comunismo, Quetzal, 1998
[3] Ver discurso inicial de Jordan Peterson
[4] George Orwell, 1984, Antígona, 2012
* Negritos são da responsabilidade do autor
[5] Ver os argumentos a favor da ação afirmativa
[6] Ben Shapiro explica a teoria da interseccionalidade
[7] Jordan Peterson nas diferenças entre homens e mulheres, que também explicam a desigualdade salarial entre os dois sexos
[8] Lei da Paridade
[9] Sowell, Thomas, Affirmative Action Around the World-an Empirical Study, 2005, Yale University Press
[10] Clarence Thomas, juiz do Supremo Tribunal dos Estados Unidos, teve dificuldade em arranjar trabalho depois de se graduar em Yale
[11] Locke, John, Dois Tratados do Governo, 2006, Edições 70»
Excelente ensaio, especialmente tendo em conta que foi escrito por um miúdo do secundário. Parabéns, Vicente! Que seja o primeiro de muitos!!!