Aqui fica mais uma entrevista concedida aos média pelo Presidente do único partido nacionalista português, o Partido Nacional Renovador (PNR). Os interessados poderão encontrar outras entrevistas nos links que disponibilizo mais abaixo.
Introdução
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Xenofobia, racismo, homofobia. Afinal, o PNR tem um discurso de ódio ou apenas de medo? José Pinto-Coelho diz que não se pode rotular e calar um partido apenas porque este tem ideias diferentes para o país.
O partido nasceu com uma vantagem sobre os outros: não foi preciso recolher as 7500 assinaturas obrigatórias, um processo difícil. Em vez disso, os seu líderes fizeram um "assalto" ao poder no PRD - o partido que tinha sido de Ramalho Eanes - já moribundo e prestes a ser extinto. Tudo na maior legalidade.
José Pinto-Coelho, Presidente do Partido Nacional Renovador (PNR).
Vinte anos passados, o partido não conseguiu mais de 0,50% dos votos, menos de 30 mil eleitores. José Pinto-Coelho, fundador e presidente da comissão política nacional, queixa-se de boicote e diz que, como está, é difícil fazer passar as ideias do PNR.
Interrompeu as férias em São Martinho do Porto, meteu-se na sua Kynco 125, "uma mota coreana que não presta para nada mas é óptima para andar na cidade", e veio até Lisboa conversar com o Sapo24 e contar na primeira pessoa quem é José Pinto Coelho e o que defende, afinal, o Partido Nacional Renovador.
Nasceu em 1960, "um ano redondo", no Campo Grande, em Lisboa, na Clínica de São Miguel, e é o segundo de quatro irmãos, nascido numa família tradicional. Diz que "sempre fui uma criança muito tímida, acanhado, calado, introspetivo, sensível - ainda sou, não de lágrima fácil, mas de sentimento lamechas". Por "osmose", sempre bebeu uma educação de direita nacional. O avô, sabemos, era um homem do regime. Tinha 13 anos quando aconteceu o 25 de Abril e a família teve de se mudar para o Brasil, Rio de Janeiro, Botafogo nos primeiros meses, Flamengo no tempo seguinte.
Foi bom e mau estudante: em 1974
só não chumbou graças ao 25 de Abril - "eu preferia ter chumbado e que
não houvesse 25 de Abril" - porque passou a ser possível passar de ano
cortado a duas disciplinas. Quando chegou a altura de escolher um curso,
foi "impelido" a ir para Direito, talvez rendido ao factos de ambos os
avôs, materno e paterno, serem juristas. "Detestei e passado um ano e
meio fui para o IADE, onde tirei o bacharel em Design". Desde então
divide o seu tempo entre dar aulas e trabalhar com profissional liberal
em design.
Por acaso, o
logotipo do PNR não é da sua autoria, mas nunca é tarde: é que o
partido vai mudar de nome. "A decisão foi tomada há pouco menos de um
ano, mas não quisemos fazê-lo antes das eleições para não confundir as
pessoas". A nova designação ainda está no segredo dos deuses, até porque
uma das ideias é lançar um concurso nas
redes sociais: "Sugira-nos um nome". E tudo será possível, desde que
José Pinto-Coelho não seja bloqueado no Facebook. Este ano já aconteceu
sete vezes, a última a conta foi reativada ontem [dia anterior à
entrevista].
Para
o PNR esta é uma situação duplamente grave em véspera de eleições
legislativas, uma vez que, devido ao baixo orçamento do partido, esta é
uma das principais formas de campanha. "Agora tenho andado mais no
Twitter, que é mais reactivo, do que no Facebook, onde estou sempre a ser
bloqueado. Ofendem-me até à última casa, mas divirto-me. À
agressividade só não acho piada, mas não bloqueio ninguém nem apago
nada, e há coisas com humor. Por causa da história do novo nome do
partido, apareceu logo um: 'Ó presidente, porque é que não dá o nome de
Partido Nacional Socialista do Trabalhador Português?' Teve graça."»
Ainda bem que ele achou graça, porque eu não acho...
Entrevista
«Sapo24: Por que motivo é bloqueado no Facebook?
JPC: São denúncias. Sou bloqueado muitas vezes, é infernal. Há certas imagens e palavras que são consideradas discurso de ódio. Uma das vezes foi porque falei em sociopatas, a propósito de uns livros infantis. Para mim, quem está a dar cabo da sociedade é um sociopata. Pronto, bloqueado. E eu preciso realmente do Facebook para fazer campanha, mas o Facebook é insuportável.
Sapo24: Mas também foi bloqueado depois de uma conversa sobre se era ou não era homossexual...
JPC: Ah, isso foi conversa de um rapaz esquerdista, o 'Jovem Conservador de Direita', que tem alguma piada quando não é ordinário - às vezes é ordinário e afino, sobretudo quando mexe com religião. Ele tem graça, e às vezes pica-se comigo. E um dia disse qualquer coisa sobre eu ser ou ter sido gay, fez uma montagem e, claro, pegou fogo. Depois o Polígrafo veio desmontar isso. Posso ter muitos defeitos, mas se há defeito que não tenho é gostar de homens. Podia ser, mas só gosto de mulheres.
Sapo24: Um homem gostar de outro é um defeito?
JPC: Olhe, coitados dos que nascem coxos, isso é um defeito. Uma pessoa que não vê, é um defeito... Atenção, tenho imensa consideração por quem tem esse sofrimento, porque há pessoas que nascem no corpo errado, mas toda a vida houve gays, e sejam muito felizes, mas é um defeito de produção.
Sapo24: A Organização Mundial de Saúde retirou a homossexualidade do grupo de doenças há uns anos.
JPC: Por mim era outra coisa que acabava, a ONU [Organização das Nações Unidas, casa mãe], um organismo altamente nefasto.
Sapo24: Tem filhos. O que fazia se um deles lhe dissesse que era homossexual?
JPC: Tenho cinco filhos, que têm entre 20 e 33 anos. Não lhes vou dizer, como o Bolsonaro, que lhes dava dois pares de estalos para ficarem homens. Se tivesse um filho homossexual amá-lo-ia infinitamente e sofria o sofrimento dele. Se ele fosse realmente homossexual. Mas agora há homossexuais que o são por opção. É evidente que numa família são todos diferentes, pode haver pessoas honestas e um é um patife, mas a educação gera um campo mais ou menos propício. É por isso que cabe à família ser a primeira educadora, são os pais que têm de decidir como querem educar os filhos, ao contrário dos regimes comunistas, em que é o Estado a educar as crianças, uma coisa contranatura.
Sapo24: O que o fez despertar para a política, o que o levou a interessar-se?
JPC: Tudo é política, todas as atitudes são fazer politica, mesmo que a pessoa não tenha essa consciência. Interessei-me por política, talvez a partir do dia 26 de abril de 1974. Até dia 24 à noite vivia tranquilamente, não sabia nada de política - sabia que havia russos e americanos, fascistas e comunistas, tinha uns soldadinho com que brincava, e sabia que havia a guerra para defesa do Ultramar e um governo português que era bom e que era bom que se mantivesse como tal. Só no 25 de Abril vejo o mundo, o meu mundo, desabar, tudo a virar-se de pernas para o ar. De repente, as minhas referências e toda a minha vivência mudou radicalmente. E isso fez-me, com os meus treze anos, querer saber coisas sobre política.
Sapo24: Já tinha uma orientação política, uma tendência ideológica?
JPC: Embora haja na direita muita gente que entrou pela esquerda, sempre fui intrinsecamente nacionalista, nunca fui outra coisa desde o 25 de Abril. Mas uma coisa foi interessar-me e começar a devorar livros logo na primeira juventude - um dos temas que mais me fascinou foi a guerra civil espanhola - outro foi a intervenção na política, que aconteceu quando regressei a Portugal - tinha o bichinho, queria fazer qualquer coisa, e foi quando ingressei no Movimento Nacionalista. E isso encheu-me as medidas.
Sapo24: Quando passou a ter idade para votar, em quem votava?
JPC: Ao 18/19 anos já votava no MIRN [Movimento Independente para a Reconstrução Nacional], Partido da Direita Portuguesa, de Kaúlza de Arriaga. Nas eleições usava sempre um autocolante e, quando nos editais da junta de freguesia em que eu residia, a Lapa, apareciam os resultados dos votos - vamos imaginar que a AD tinha três mil e o MIRN 15 votos - eu dizia orgulhosamente que um daqueles 15 era meu. Teve uma vida efémera e concorreu coligado com o PDC e com a Frente Nacional [PDC-MIRN/PDP-FN], quando toda a gente votava AD. O MIRN foi vítima da febre da Aliança Democrática e do voto útil, que aniquilou qualquer esperança de crescimento do partido. Toda a minha família votava AD, e são pessoas que pensam como eu. Quando desapareceu, passei a fazer parte da abstenção, deixei de votar. Devo dizer-lhe que ao princípio ainda me dava ao trabalho de ir votar e votava nulo.
Sapo24: O que escrevia no voto?
JPC: Não digo, não acrescenta rigorosamente nada, mas dava-me a esse trabalho. Quando o PNR apareceu, fui um dos fundadores, comecei a votar PNR. Tive um ocaso de cerca de 20 anos em que não votava, porque o espectro político nacional e a composição da Assembleia da República vai da extrema-esquerda ao centro-direita. Hoje a diferença entre a esquerda e a direita está esbatida, mas ultimamente está a renascer, e é por isso que a esquerda tem uma necessidade extrema de chamar direita àquilo que não é direita. É a direita que lhe convém.
Sapo24: Que partidos não são de direita?
JPC: O CDS e o PSD, por exemplo. O CDS é, quando muito, centro-direita, e o seu eleitorado é claramente mais à direita do que o partido. E o do PSD, parcialmente, também será.
Sapo24: Para terminar, como passou à atividade partidária, o que o levou a dar esse passo?
JPC: Entrei na política já casado e com filhos relativamente criados. Em 1997, quando vou sair de um edifício onde tinha clientes da minha atividade de artes gráficas, no Bairro Azul, vejo uns folhetos com uma imagem claramente nacionalista colocados no carros, aproximo-me, retiro um e eram do Aliança Nacional. Telefono a saber quem eram e vou parar à Aliança Nacional, que é a génese do PNR, que nasce em 2000. Sempre disse que não me oferecia para nada de especial, mas nunca recusaria o que o partido me pedisse. Em 2002, nas primeiras eleições legislativas a que concorremos, era preciso um cabeça-de-lista por Lisboa e ninguém queria dar a cara; fiquei eu. E em 2005, quando o partido esteve na eminência de desaparecer, percebi que ou agarrava aquilo ou nunca mais teríamos outro igual.
Sapo24: Onde se posiciona o PNR no espectro político?
JPC: Na direita da sua extrema, como é evidente. Quando eu for eleito, agora ou nas próximas eleições, vou sentar-me no último lugar da direita na Assembleia da República, e aí ela estará completa, porque vai ter direita. O PNR é a direita nacional, portanto, somos a direita e a sua extrema, não há volta a dar ou nada para escamotear.»