Mais um dia, mais umas centenas de novos casos de coronavírus aqui em Portugal! Aqui fica a tabela-resumo e os gráficos coma evolução do número de infectados, de mortos e de recuperados aqui no rectângulo:
Conforme se pode ver na tabela acima
(terceira coluna), entre ontem e hoje foram infectadas mais 320 pessoas,
o que corresponde a um aumento de novos casos de 25%. Repare-se que, em termos relativos, o aumento foi igual ao do dia anterior (25%). Porém, em termos absolutos, tivemos mais 60 novos casos (320) do que no dia anterior (260). Ou seja, para o mesmo factor de crescimento de novos casos (25%), temos cada vez mais novos casos à medida que o tempo vai passando. A razão pela qual eu chamo a atenção para isto é que temos aqui uma excelente ilustração da natureza exponencial do fenómeno de contágio, mesmo quando o contágio não segue exactamente uma exponencial: à medida que o tempo vai passando, as novas infecções acontecem cada vez mais rápido.
Este fenómeno também pode ser notado se observarmos a curva da evolução
diária do número de infectados em Portugal. Reparem como cada novo número de infectados diário está cada vez mais espaçado dos números de infectados diários anteriores, e quão mais vertical se vai tornando a curva (note-se que esta curva não corresponde a nenhum modelo matemático, é mesmo a curva real!):
Sublinhe-se, ainda assim, um aspecto positivo: a meio desta semana, a linha de tendência exponencial apontava para a ocorrência de 2500 casos no dia de hoje. Ficámo-nos pelos 1600, o que significa que as medidas de mitigação em curso conseguiram assegurar-nos, até agora, o adiamento de 900 infecções. Resta-nos esperar que os portugueses se continuem a resguardar nas próximas semanas.
Entretanto, o número de mortos continua a divergir do número de recuperados:
O número de infectados real continuou a
divergir do número de infectados previsto pela linha de tendência
exponencial, pelo que o Modelo de Previsão I,
que tinha dado bons resultados entre os dias 14 e 18, está agora a gerar
valores muito acima dos reais. Ainda assim, vou continuar a usar este
modelo como indicador do que teria acontecido se os portugueses não se
tivessem resguardado.
Já o Modelo de Previsão II tem permitido
obter valores dentro da gama prevista (coluna "intervalo"). Até quando o
continuará a fazer? É difícil dizer, mas tudo depende da evolução do
factor de crescimento de novos casos, i.e. da percentagem de variação
relativa (terceira coluna da primeira tabela desta posta) se manter mais ou menos constante ao longo do tempo ou não.
Tendo em conta que o Modelo I está a produzir valores muito acima dos reais, vou optar por deixar de actualizar o gráfico com a linha de tendência exponencial. De hoje em diante, apenas publicarei a tabela acima.
No caso do Modelo II, podemos ver, olhando para a primeira tabela desta posta, que o número de infectados nos últimos cinco dias cresceu entre 22% (19-Mar) e 43% (18-Mar). Se o número de infectados crescer dentro desta gama de valores, amanhã teremos entre 1952 e 2288 infectados. A gama de valores previstos pode ser vista a cor castanha neste gráfico:
Finalmente, aqui fica a habitual tabela com os mortos em cada país em proporção da sua população, com os países ordenados por ordem decrescente da sua taxa de mortalidade. Adicionei a Áustria, o Equador e a Malásia à tabela, por também já terem ultrapassado o limiar dos 10 mortos.
Fonte das estimativas de população: Worldometer.
Fonte do número de mortos em cada país: Worldometer e Wikipédia.






Esta informação que o Afonso tem o trabalho de compilar diariamente é notável.
ResponderEliminarEu acompanhei a evolução da epidemia na China no início de Fevereiro, quando o número de infectados ainda não tinha chegado aos 10 mil. Chamou-me a atenção uma notícia que, com a evolução que se tinha dado até então (os casos multiplicavam-se por 10 a cada 5 dias), podia prever-se que no final de Fevereiro se atingiriam os 100 milhões de infectados. Eu peguei no gráfico que acompanhava a notícia, e durante os dias seguintes fui marcando a evolução dos novos casos e apercebi-me muito rapidamente que a linha estava a divergir consideravelmente da projecção; deixei o gráfico e passei a acompanhar a epidemia pela Wikipedia.
Quanto à epidemia/pandemia em Portugal, que é o que nos interessa, também cheguei a fazer algumas projecções, a partir dos dados da primeira semana, que me davam um número de infectados, no final de Março, entre os 40 e 45 mil. Felizmente era um exagero, estou convencido que ficaremos muito abaixo desses números. Entretanto, não devemos esquecer que há um factor que puxa para baixo o número de novos casos: o critério para submeter ao teste os casos suspeitos é muito apertado. Logo, se não se fizerem testes, não há novos contaminados.
Ao que parece, no queimódromo do Porto foi instalada uma estrutura com capacidade para fazer 700 testes por dia. No Europarque de Santa Maria da Feira abriu outra que pode fazer 300 testes diários (a 150 euros cada um!!!) e estão previstos outros locais para breve. Se usarem a sua capacidade máxima é de esperar um aumento dos casos diários.
Mas a tabela que mais me interessa é a da taxa de mortalidade, porque só aí é que se joga a eficácia com que cada país conseguiu lidar com o caso. Estou com baixas expectativas: Portugal aproxima-se do “Top 10” e (oxalá me engane uma vez mais!) tenho o palpite que ainda vai ao “Top 5”.
(Stonefield)
«o critério para submeter ao teste os casos suspeitos é muito apertado. Logo, se não se fizerem testes, não há novos contaminados.»
EliminarExcelente observação, caro Stonefield. E se a falta de testes já é tão evidente aqui em Portugal, apenas podemos imaginar o descalabro que deverá ser nos países de segundo e terceiro mundo. Julgo, ainda assim, que as medidas de mitigação surtiram um efeito considerável. Esses 40 a 45 mil que mencionou não eram assim tão descabidos... se a curva de infectados real tivesse seguido mesmo uma exponencial, provavelmente estaríamos agora lá perto. Porque o problema das exponenciais é esse mesmo: quanto mais alto estivermos, ainda mais alto subimos a seguir.
Quanto à tabela com a taxa de mortalidade em cada país, eu partilho o seu pessimismo, sobretudo depois de um outro leitor deste blogue me ter alertado para o facto de o processo de contágio em Espanha ter começado por ser mais lento do que aqui em Portugal. Segundo ele, a Espanha demorou mais dias do que nós a chegar aos 1600 infectados. Isso não augura nada de bom para os próximos dias, mas vamos aguardar e ver no que é que isto dá.
Saudações Nacionalistas!
Já agora, caro Stonefield, convido-o a ler este artigo no afro-Público no qual se especula acerca dos motivos pelos quais a Alemanha tem poucas mortes, apesar de ter muitos infectados. Uma das explicações avançadas é que o número de testes realizados na Alemanha é muito superior ao dos outros países da Europa, o que inflaciona o número de infectados e permite detectar cadeias de infecção antecipadamente. Transcrevo:
Eliminar«Se há mais testes, especialmente na primeira fase em que há muitos infectados que não desenvolveram a doença, haverá também mais registos de infecções, e por isso, a relação de mortos por infectados será menor.»
https://www.publico.pt/2020/03/22/mundo/noticia/explica-morram-menos-pessoas-alemanha-causa-coronavirus-1908932
O artigo que me indicou dá uma razão plausível para a aparente anomalia estatística alemã, no actual contexto europeu, embora as próprias autoridades não pareçam muito confiantes no evoluir da situação. Outra anomalia estatística que também saltou aos meus olhos foi o caso da Índia: com mais de 1300 milhões de habitantes, acabou de passar os 400 casos de infecção… estes números não devem ser minimamente credíveis, porque todos sabemos como funciona a Índia (e desta vez não se pode argumentar que é uma ditadura a ocultar informação).
EliminarE mesmo aquele que considero o indicador mais importante (o número de mortos relativamente à população total), será tanto mais impreciso quanto maior for a pressão sobre os serviços de saúde. Em Itália, por exemplo, há neste momento muitas mortes não contabilizadas, simplesmente porque as análises post-mortem a casos suspeitos são já um desperdício de recursos.
(Stonefield)
Entretanto, passei por um texto em espanhol que sintetizava alguma informação que tem passado dispersa:
Eliminar«... em cada 1000 pessoas, 900 passarão [pela doença] assintomaticamente, incluindo crianças e jovens. 100 apresentarão sintomas. Desses 100, 80 passarão por uma gripe forte: tosse seca, dores de cabeça e musculares, ou seja, duas a três semana em casa e com sofrimento. Dos 20 que sobram, 15 desenvolverão uma pneumonia bilateral com dificuldade em respirar, o que obrigará a internamento hospitalar para administrar broncodilatadores, corticóides e oxigénio. Os 5 restantes desenvolverão uma fibrose pulmonar que exigirá internamento imediato nos Cuidados Intensivos, com respiração assistida. Desses 5, 3 morrerão. E os dois que se salvam apresentarão sequelas que possivelmente obrigarão ao transplante do pulmão.»
Este texto dava depois alguns números relativos aos 40 milhões de espanhóis, que eu dividi por 4 para se adaptar à realidade portuguesa: «Dos 10 milhões de portugueses, só um milhão vai ter sintomas, dos quais 800 mil vão curar-se em casa, como numa gripe forte. 150 mil precisarão de internamento hospitalar com oxigénio, e 50 mil precisarão da UCI.»
Ora, segundo o Correio Manhoso de 13 de Março, existem em Portugal 4,2 camas UCI por 100 mil habitantes (o número mais baixo da Europa! E dito de outra forma há, quando muito, 420 camas UCI). Imaginemos que o (des)governo faz um esforço e dobra entretanto esse número: teríamos 850 camas… para 50 mil doentes! Voltando ao texto original:
«Vêem o problema? O autêntico problema não é a doença em si, apesar de ter uma morbimortalidade importante, senão que, devido às suas características epidemiológicas, vem numa vaga, infectando toda a população que não tem imunidade prévia numa questão de 2 a 3 meses, colapsando o Serviço Nacional de Saúde.
(Stonefield)
Confesso que fiquei muito surpreendido com o conteúdo desse artigo... 9 em cada 10 pessoas passarão pela doença sem sintomas? Apenas 10% terão sintomas?! Isso contradiz tudo o que li até ao momento sobre a SARS-CoV-2! O caro Stonefield poderia, por favor, providenciar-me o link para esse artigo?
EliminarQuanto ao reduzido número de camas UCI per capita em Portugal -o mais baixo de toda a Europa, segundo as estatísticas- ele é o principal motivo pelo qual as medidas de isolamento social são tão importantes, mais aqui em Portugal do que em qualquer outro país da UE. Infelizmente, parece-me que a esmagadora maioria dos portugueses não está a perceber isso. É por isso que é muito importante que continuemos a insistir no isolamento, mesmo que isso nos traga alguns dissabores. Por exemplo, ainda ontem tive que discutir com um fulano que quase se enconstou a mim na fila do supermercado.
Eu até acho que a maioria está a cumprir com o seu dever; quando tenho de sair vejo as ruas praticamente desertas. Resta-me saber se a motivação estará certa, mas isso vai-se saber com o passar do tempo. Para já é o “Vai ficar tudo bem”, cançõezinhas, bandeirinhas arco-íris e boas intenções; com o passar das semanas, os “bobos” (bourgeois-bohèmes) vão esmorecer e comer o pão que o diabo amassou. Vai ficar tudo bem f_d_d_, não tenho dúvida.
EliminarO link do texto que citei é o seguinte:
https://elmanifiesto.com/sociedad/449509068/Coronavirus-lo-que-ni-autoridades-ni-medios-nos-cuentan-ed-Javier-Ruiz-Portella.html
(Stonefield)
Muito obrigado, caro Stonefield! Infelizmente, tendo a partilhar o seu pessimismo. Julgo que vamos acabar como a Espanha e como a Itália, a braços como uma crise como já não víamos há décadas. Ainda hoje ficou toda a gente contente com a descida do número de infectados... esquecendo-se mais uma vez que um dia, i.e. um único ponto na curva de infectados, não quer dizer nada.
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