sábado, 21 de março de 2020

Coronavírus: os números do dia (21-Mar-2020)


     Vou actualizar novamente as tabelas e gráficos que tenho publicado recentemente aqui no TU. Como habitual, começo pela evolução diária do número de casos aqui no rectângulo. Decidi acrescentar também o número de mortos e de recuperados, uma vez que já atingiram níveis significativos:




Conforme se pode ver na tabela acima (terceira coluna), entre ontem e hoje foram infectadas mais 260 pessoas, o que corresponde a um aumento de novos casos de 25%. Note-se que, apesar de haver alguns dias em que o número de novos casos diminuiu (10-Mar e 19-Mar), a tendência geral tem sido o aumento dos novos casos. Este aumento também pode ser notado se observarmos a curva da evolução diária do número de infectados em Portugal:




Outro dado algo preocupante é que número de mortos excede para já o número de recuperados. No entanto, é preciso ver que estes números ainda são muito baixos para podermos concluir o que quer que seja.


  

O número de infectados real continuou a divergir do número de infectados previsto pela linha de tendência exponencial (ver figura mais abaixo), pelo que o Modelo de Previsão I, que tinha dado bons resultados entre os dias 14 e 18, está agora a gerar valores muito acima dos reais. Ainda assim, vou continuar a usar este modelo como indicador do que teria acontecido se os portugueses não se tivessem resguardado.

Já o Modelo de Previsão II tem permitido obter valores dentro da gama prevista (coluna "intervalo"). Até quando o continuará a fazer? É difícil dizer, mas tudo depende da evolução do factor de crescimento de novos casos, i.e. da percentagem de variação relativa (terceira coluna da primeira tabela desta posta) se manter mais ou menos constante ao longo do tempo ou não.




Vamos agora actualizar os modelos e fazer as previsões para amanhã. Actualizando a linha de tendência exponencial com o novo ponto de hoje (1280), a equação para prever o número de infectados passa a ser a seguinte:




Repare-se como o ponto de hoje (1280) está desviado da linha de tendência exponencial, tal como tinha acontecido com o ponto de ontem (1020). A cada novo ponto destes, a exponencial vai sendo desviada cada vez mais para a direita, o que significa que o processo de contágio vai sendo diferido no tempo (diferido em relação à situação sem medidas de mitigação). Isso pode ver-se pelo facto de já haver alguns pontos à esquerda da exponencial (e.g. 641). Segundo a esquação deste gráfico, e admitindo um erro de 20%, amanhã teremos entre 1839 e 2206 infectados.

No caso do Modelo II, podemos ver, olhando para a primeira tabela desta posta, que o número de infectados nos últimos cinco dias cresceu entre 22% (19-Mar) e 43% (18-Mar). Se o número de infectados crescer dentro desta gama de valores, amanhã teremos entre 1561 e 1830 infectados.

Finalmente, aqui fica a habitual tabela com os mortos em cada país em proporção da sua população, com os países ordenados por ordem decrescente da sua taxa de mortalidade. Adicionei o Egipto, a Dinamarca, Portugal e a Turquia à tabela, por também já terem ultrapassado o limiar dos 10 mortos. Das duas uma: ou a China aldrabou o seu número de mortos ou os números da Europa estão a tornar-se escandalosos...


Fonte das estimativas de população: Worldometer.
Fonte do número de mortos em cada país: Worldometer e Wikipédia.

7 comentários:

  1. Bom trabalho.
    Felizmente parece que a os 2.500 casos previstos para Domingo não vão ser atingidos.

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    1. Muito obrigado, caro JS!

      Sim, felizmente já não vamos chegar lá. Mas é preciso ver que a exponencial corresponde ao pior cenário possível, à situação em que não há quaisquer medidas de mitigação. A verdade é que não me parece que estejamos muito melhor. Repare-se: se usarmos o factor de crescimento de novos casos mais baixo que podemos ver na tabela (22%), amanha teremos 1562 mortos, segunda-feira teremos 1905 e terça-feira teremos 2324. Ou seja, ganhámos apenas alguns dias. E insisto, isto é se usarmos o factor de crescimento de novos casos mais baixo da tabela, porque se usarmos o de ontem (30%) teremos 2812 mortos na terça-feira.

      O ideal era conseguirmos baixar o factor para baixo dos 20%, mas parece-me que isso não será possível. Só espero que não acabemos como os italianos...

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    2. Onde eu escrevi mortos deve ler-se infectados, evidentemente.

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  2. Há uns dias vi uma tabela com a comparação do n° de infetados, mortos e recuperados com a Espanha e Itália, em cada dia desde do momento da deteção do primeiro caso de infecção. Ou seja no dia n+m (onde 'n' é o dia em q foi detetado o primeiro caso de infecção no país e 'm' é o n° de dias decorridos após esse primeiro caso),a Espanha tinha x casos, a Itália tinha y casos e Portugal tinha z casos. E recordo me de que à data que vi esse quadro Portugal até estava pior que a Espanha. Não sei se entretanto conseguimos desacelerar o crescimento mais que os Espanhóis. Eu ainda hoje estive a procurar esse quadro e já não encontrei. Mas era uma comparação muito interessante.

    G, o cigano

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    1. Portugal estava pior do que a Espanha? Não quero duvidar de si, caro G, mas acho isso realmente espantoso, dada a diferença actual entre o número de casos em cada um dos dois países (PT 1600, ES 28572). É realmente uma pena que o caro G não tenha conseguido encontrar o tal quadro...

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  3. De qualquer forma, posso confirmar essa informação com o Wikipedia.

    Portugal teve o primeiro caso no dia 2 de Março. Hoje, passados 20 dias temos 1600 casos. Ou seja, para chegarmos aos 1600 casos demoramos 20 dias.

    A Espanha teve o primeiro caso no dia 31 de Janeiro. E só chegou aos 1600 casos no dia 10 de Março. Ou seja, 39 dias depois.

    A atenuar a nossa situação temos a resposta das autoridades com o confinamento (as primeiras medidas) ao fim de 10 dias após o primeiro caso, sendo que nessa altura já estavam confirmados 78 casos.

    Já a Espanha decretou o estado de alerta apenas no dia 13 de marco quando já ultrapassavam 5 mil infetados.

    Eu sei que a leitura dos números não pode ser feita de forma assim tão simplista, mas dá para ter uma percepção de como estava a ser a evolução do vírus no nosso país em comparação com a Espanha.

    G, o Cigano

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    1. Sim, sem dúvida, excelente trabalho, caro G. Prever a evolução do número de casos em cada país é realmente difícil, porque se trata de prever o próprio comportamento humano, comportamento que difere imenso de pessoa para pessoa e ainda mais de comunidade para comunidade. Por exemplo, a semana passada houve vários concertos nos EUA, apesar de já haver casos de SARS-CoV-2 confirmados em vários estados. Não surpreenderia nada que o número de casos nos EUA "explodisse" nos próximos dias...

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