Hoje é Sexta-feira Santa, o dia em que, segundo o Evangelho cristão, Jesus Cristo -o próprio Deus feito homem- foi julgado sumariamente, cruelmente torturado e depois obrigado a carregar a sua cruz -símbolo dos pecados da humanidade- pelo monte Gólgota acima, no topo do qual foi barbaramente crucificado.
Entre os musicólogos eruditos de todo o mundo, considera-se unanimemente que um dos maiores feitos da Civilização Ocidental é uma obra musical de escala monumental com quase 300 anos, que recria e presta louvor a esse grande tormento e sacrifício de Jesus Cristo, o "cordeiro de Deus sem mácula, sempre paciente e sereno no seu sofrimento". Trata-se de um conjunto de 68 peças musicais escritas para um coro duplo e uma orquestra dupla, que foi apresentada ao público pela primeira vez no ano de 1727, sob o título em latim de "Passio Domini nostri J.C. secundum Evangelistam Matthæum" e que é hoje em dia conhecida simplesmente como a "Paixão Segundo S. Mateus". O seu autor é o meu adorado Johann Sebastian Bach (1685-1750), o homem cuja música me salvou a vida (literalmente) e que fazia questão de incluir, em todas as suas partituras, juntamente com a sua assinatura e selo pessoal, a máxima "Soli Deo Gloria" (só a Deus a glória).
Como é que um "reles ateu" como eu sabe tudo isto? É simples: a maior parte da música de Bach, tendo sido composta com propósitos estritamente religiosos, contém de uma dimensão humana tão pungente e arrebatadora que consegue a abalar as nossas convicções acerca de nós próprios. Foi precisamente isso que aconteceu comigo da primeira vez que ouvi a peça do vídeo abaixo. Trata-se do 39º movimento da Paixão, uma Ária (peça vocal cantada por uma voz solo a pretexto de um tema ou mote, acompanhada por um pequeno subconjunto de instrumentos da orquestra). Esta é uma das minhas versões favoritas dessa Ária, interpretada pela contralto Delphine Galou, pelo violinista solo François-Marie Drieux e pela orquestra "Les Siècles", dirigida pelo maestro François-Xavier Roth (todos eles franceses):
O contexto da peça é o da tripla negação de S. Pedro: durante a última ceia, Jesus dissera Pedro que, na sequência da sua prisão no Monte das Oliveiras (prisão de Jesus), o futuro primeiro papa o havia de negar não uma, não duas, mas sim três vezes, ainda antes que o galo cantasse, anunciando a alvorada. E, com efeito, Pedro acabou por fazer isso mesmo, negar Jesus três vezes antes de o galo cantar, sendo então tomado por um sentimento de culpa e por um arrependimento dilacerantes, que o levaram a chorar compulsiva e amargamente.
Não pretendo ser arrogante, mas julgo que muitos cristãos "modernos" não percebem esta história. Ela não é sobre S. Pedro... ela é sobre nós, homens, e sobre a nossa tendência para a covardia e para a autopreservação egoísta. Tendência que, em última instância, acaba sempre por nos prejudicar gravemente. Como Pedro acabou por descobrir, negar Jesus era afinal negar-se a si próprio, porque a pior parte de não fazer o que devemos é termos de viver com a culpa, os remorsos e com outras eventuais consequências da nossa falta de carácter. Nunca deixem de fazer aquilo que deve ser feito, caros leitores. Eu, que também já fui Pedro bem mais vezes do que gostaria, posso assegurar-vos que a alternativa é muito pior!...
Deixo aqui a versão original em alemão e também uma tradução cantável (i.e. que pode ser substituída directamente no texto original) em inglês:
O contexto da peça é o da tripla negação de S. Pedro: durante a última ceia, Jesus dissera Pedro que, na sequência da sua prisão no Monte das Oliveiras (prisão de Jesus), o futuro primeiro papa o havia de negar não uma, não duas, mas sim três vezes, ainda antes que o galo cantasse, anunciando a alvorada. E, com efeito, Pedro acabou por fazer isso mesmo, negar Jesus três vezes antes de o galo cantar, sendo então tomado por um sentimento de culpa e por um arrependimento dilacerantes, que o levaram a chorar compulsiva e amargamente.
Não pretendo ser arrogante, mas julgo que muitos cristãos "modernos" não percebem esta história. Ela não é sobre S. Pedro... ela é sobre nós, homens, e sobre a nossa tendência para a covardia e para a autopreservação egoísta. Tendência que, em última instância, acaba sempre por nos prejudicar gravemente. Como Pedro acabou por descobrir, negar Jesus era afinal negar-se a si próprio, porque a pior parte de não fazer o que devemos é termos de viver com a culpa, os remorsos e com outras eventuais consequências da nossa falta de carácter. Nunca deixem de fazer aquilo que deve ser feito, caros leitores. Eu, que também já fui Pedro bem mais vezes do que gostaria, posso assegurar-vos que a alternativa é muito pior!...
Deixo aqui a versão original em alemão e também uma tradução cantável (i.e. que pode ser substituída directamente no texto original) em inglês:
Alemão
Erbarme dich, mein Gott,
um meiner Zähren willen!
Schaue hier, Herz und Auge weint vor dir bitterlich.
Erbarme dich, mein Gott.
Inglês
Have mercy, my God,
for the sake of my tears!
See here, before you heart and eyes weep bitterly.
Have mercy, my God.
___________
Ver também:
Momento Musical (7): «Foi Deus» (Alberto Janes / Amália Rodrigues)
Xi, não sabia que a sua depressão tinha chegado a esse ponto! Lamento imenso, eu também quase que quis fazer o mesmo há uns anos atrás. Enfim, agradeço muito a música, suponho que a tenha postado especialmente para mim. Talvez me consiga ajudar, tenho é que a ouvir mais umas vezes! Aproveito também para agradecer os parabéns.
ResponderEliminarAss.Rui
Rui disse…
Eliminar«Xi, não sabia que a sua depressão tinha chegado a esse ponto! Lamento imenso, eu também quase que quis fazer o mesmo há uns anos atrás. »
Sim, foi. Na altura cheguei mesmo a estudar vários métodos para tentar perceber como é que poderia ser feito com a máxima probabilidade de sucesso e o mínimo de dor possível. Descobri, por exemplo, que grande parte das pessoas que se tentam suicidar com armas de fogo acabam por ficar deficientes ou aleijadas para toda a vida, pelo que descartei essa hipótese em definitivo. Por incrível que pareça, a maior parte dos suicídios bem-sucedidos ocorrem pelo velhinho método de enforcamento, mas há um detalhe extremamente importante: o comprimento do ponto de suspensão da corda até ao pescoço tem de ser de uma determinada proporção em relação ao nosso peso, bem como o lanço, i.e. o “salto para o vazio” que a vítima dá no momento em que decide suicidar-se. Se o esticão não for suficientemente forte, o pescoço não parte e um gajo pode ficar entre 15 a 20 minutos ou até mais, dependendo da nossa constituição física e musculatura, a estrebuchar dolorosamente até morrer finalmente por asfixia.
Enfim, eu nem sequer devia ter esta conversa consigo, mas o que eu quero sublinhar é que, se até um tipo como eu -que esteve mesmo à beira de o fazer e se safou tendo agora uma vida relativamente boa- o caro Rui pode perfeitamente fazer o mesmo! :)
«Enfim, agradeço muito a música, suponho que a tenha postado especialmente para mim.!»
Sim, tenho de confessar que não foi apenas em si, mas também me lembrei de si e da lista de músicas que lhe prometi fazer. Se calhar, o melhor é ir mesmo fazendo a coisa assim, ir publicando “momentos musicais” à medida que encontro versões de que gosto. É que, como expliquei no outro comentário, há versões que são tão más que estragam completamente a música. Às vezes eu não entendo como é que pessoas instruídas podem produzir coisas tão más, porque fico com a sensação que nem sequer se deram ao trabalho de tentar perceber a obra. É quase como ler um poema de Camões sem afectar emocionalmente as sílabas e os versos. Estraga completamente a coisa! E eu não quero providenciar-lhe uma lista cheia de versões desse género…
«Talvez me consiga ajudar, tenho é que a ouvir mais umas vezes!»
Bem, esta não é a melhor música para isso, uma vez que se trata de uma lamentação. Mas eu encaro-a numa perspectiva de apelo à nossa responsabilidade. A única coisa que podemos controlar nesta vida é a forma como respondemos aos desafios que ela nos vai oferecendo. S. Pedro não conseguiu encontrar em si a coragem para ficar ao lado de Jesus, o que era realmente um desafio monumental. Duvido muito que algum de nós conseguisse fazer melhor do que ele naquela situação. Parte desta música é o reconhecimento disso mesmo, somos apenas humanos e há limites para aquilo que podemos fazer. A questão é que a situação de Pedro é uma situação extrema, a maior parte de nós não tem que escolher entre a vida e a morte, só entre o desconforto imediato, por mais severo que seja, e o arrependimento futuro.
«Aproveito também para agradecer os parabéns. »
Eu é que agradeço a presença do caro Rui no TU. E espero sinceramente que consiga cumprir os seus objectivos brevemente. Um abraço!
Brilhante!
ResponderEliminarVotos de uma Pàscoa Feliz para si e toda a sua família.
Cumprimentos,
Ana Maria
Ana Maria disse…
Eliminar«Brilhante!»
É verdade. Para mim, Bach über alles, por muitos que outros prefiram Mozart e Beethoven.
«Votos de uma Pàscoa Feliz para si e toda a sua família.»
Muito obrigado, cara Ana Maria. Mais uma vez, a minha resposta vem tarde demais, pelo que lhe peço desculpa. Espero redimir-me desejando-lhe, com toda a sinceridade, tudo de bom para si e para os seus.
Cumprimentos
Olá Afonso,
ResponderEliminarmais dois casais:
pretos + brancas, um nos 30s e outro teens
abraço,
Ilo
«Olá Afonso,
Eliminarmais dois casais:»
Olá Ilo, muito obrigado. Já li no seu Portugal Integral que decidiu fazer uma pausa. Uma vez que eu também já deixei de actualizar o TU durante algumas semanas, compreendo perfeitamente a sua decisão. Vou deixar um comentário mais longo no seu blogue mais tarde, mas entretanto queria apenas dizer o seguinte: o caro Ilo fez a diferença. Eu próprio, que me considero um dos nacionalistas mais lúcidos da blogosfera (seria falsa modéstia afirmar o contrário), demorei algum tempo a perceber a relação entre a perda do nosso compasso moral e o nosso declínio civilizacional. No fundo eu sempre soube, a um nível intuitivo, que essa relação existe. Mas foi o caro Ilo que me convenceu dela em definitivo. Por isso descanse bem, caro amigo. Os seus esforços não foram em vão!
Um abraço,
AdP
Olá Afonso,
ResponderEliminaragradeço as suas palavras e fico feliz de ter conseguido passar a mensagem que queria passar, e sobretudo a si porque quer dizer que ela irá mais longe do que iria só comigo. Aliás, volto a agradecer toda a promoção que fez às minhas coisas - sem qual não teria por certo nem metade da audiência que tive.
Entretanto, mais um casal (com filhos):
Branco + Preta, 30s.
Um abraço,
Ilo