quinta-feira, 15 de junho de 2017

Ainda sobre o livro «Violência e Islão»


    Na sequência da posta que fiz aqui sobre o livro "Violência e Islão", aqui fica também esta belíssima entrevista concedida pelo seu autor, Adónis, ao jornal Expresso. A entrevista já foi publicada em Novembro de 2016, mas a pertinência do seu counteúdo permanece perfeitamente actual. Um muito obrigado! ao Raghnar por a ter trazido até nós!

«Considerado o maior poeta árabe vivo, é um humanista combativo e um inimigo da religião enquanto ideologia. No dia 11 de Novembro vai estar em Portugal a convite do Lisbon & Estoril Film Festival.

Ali Ahmad Said Esber, que assina Adónis (um nome ousado e ostensivamente não-islâmico), recebe o Expresso no seu pequeno apartamento numa torre impessoal nas imediações de La Défense, em Paris, a cidade onde vive desde 1985. Nascido numa aldeia da Síria, em 1930, é um homem pequeno, expressivo e afável, de sotaque pronunciado. Um humanista combativo, mas totalmente despido de autoimportância. 

Sentamo-nos em sofás baixos numa sala de estar atafulhada de livros de poesia, mas também de ensaios, revistas, papéis, recortes, fotos de família. Lá fora o tempo está feio, mas o acolhimento do poeta é impecável e a sua abordagem às questões muito terra a terra. Faz questão de não deixar que se gerem equívocos quanto a opiniões mais polémicas e prefere dizer as coisas como elas são do que discutir teorias ou ideias abstractas. É um inimigo da religião enquanto ideologia e céptico quanto a todas as ideologias. 

Adónis estudou na Universidade de Damasco e mudou-se para Beirute em 1956. Esteve ligado à renovação modernista da poesia árabe, animando grupos poéticos e revistas, traduzindo poetas franceses, escrevendo ensaios. Mas também assistiu à degeneração que tornou o mundo árabe um cenário de violência permanente. Atribui essa violência ao islamismo, que se apropriou da religião, aos monoteísmos em geral e à conivência ocidental.

A poesia de Adónis (“Mémoire du Vent”, Gallimard, reúne a produção de 1957 a 1990) é formalmente variada, alternando o tom lírico e o quase épico, o verso livre e o poema em prosa. É uma poesia inquisitiva, um pouco esquiva, e que usa a linguagem comum como instrumento de uma espécie de misticismo laico. A laicidade é, aliás, um dos cavalos de batalha de Adónis. Organizador de uma ambiciosa antologia da poesia árabe, o nosso anfitrião defende que um conhecimento mais profundo da cultura árabe mostra que todas as grandes questões são comuns ao Ocidente, e comuns desde sempre. Um dos seus temas favoritos é a semelhança entre tradições aparentemente tão diferentes como o sufismo e o surrealismo.

(...) apareceram duas traduções portuguesas, as primeiras, de livros de Adónis: “O Arco-Íris do Instante” (D. Quixote), antologia poética com selecção e introdução de Nuno Júdice, e “Violência e Islão” (Porto Editora), um frontal livro de entrevistas com Houria Abdelouahed, psicanalista e sua tradutora. Boa ocasião para uma hora a beber café caseiro à conversa com aquele que muitos consideram o maior poeta árabe vivo.


Expresso: “Violência e Islão” é um livro bastante violento, digamos assim. Até comparado com outras opiniões igualmente fortes e...
Adónis: Corajosas? [risos] 

Isso.
Mas não diria que é violento. 


Digo violento porque, em geral, as pessoas que criticam o Islão distinguem um “bom Islão” e um “mau Islão”. Mas a sua crítica é mais radical. Considera que se trata de uma civilização que fracassou. Diz mesmo que a decadência árabe começou em 1258, com a queda de Bagdade.
É preciso fazer algumas distinções nessa matéria. Há dois estratos no Islão, como aliás em todas as religiões, como no cristianismo na Idade Média. Há um Islão interpretado do ponto de vista do poder, ou seja, um Islão politizado, e há o Islão dos indivíduos, dos muçulmanos, que não tem nada que ver com o Islão enquanto religião institucionalizada. Eu falo do Islão institucional destes últimos 15 séculos. Mas não falo dos indivíduos.

Mas lembra que o Islão é, desde o início, uma religião do poder...
Absolutamente. Desde o início que [o Islão] é a guerra. Dos quatro primeiros califas, os fundadores, três foram assassinados. E demorou meio século até se fundar o primeiro estado, em Damasco.


Mas isso não acontece com todas as religiões?

 Com todas as religiões não, mas com os três monoteísmos. E se há diferenças são diferenças de grau, não de natureza. Mas o cristianismo fez a sua revolução, separou a religião da política.

Numa das entrevistas afirma que Cristo era um poeta. Mas não é tão generoso com as figuras do Islão... 
Sou, com os místicos, os poetas… Mas o Islão oficial nunca encorajou a poesia, nem a filosofia, nem as artes...

Isso porque, segundo escreve, o Islão não valoriza o eu, a subjetividade.
Sim, é sempre a “Umma”, a comunidade, o grupo. Isso é que conta, não é o indivíduo. Mas isso aconteceu em todas as religiões, até às revoluções internas do cristianismo. Mesmo um grande filósofo como Espinosa foi rejeitado pelo judaísmo. Em toda a história árabe, nunca tivemos um grande poeta que fosse crente, que fosse praticante. Como aconteceu com Claudel aqui em França.

Escreve que a poesia árabe pré-islâmica era mais rica…
Era mais livre. Porque não havia limites, nem no plano das palavras nem no plano do modo de expressão. Mas sob a égide do Islão houve poetas que foram mortos.


Há um debate antigo sobre a beleza da linguagem do Corão, e nestas entrevistas declara que a linguagem talvez seja bela, mas que o Corão diz coisas horríveis. Enquanto texto, o Corão não o impressiona?
Não, e não sou o único. Há muitos críticos árabes que dizem que a “inimitabilidade” não está na linguagem, mas no sentido. Não sou eu o único que diz isso, há muitos escritores árabes antigos que já o diziam. Porque não foi a revelação que criou esta língua, esta língua já existia, era muito rica, muito conhecida. E o Corão apenas utilizou esta língua.

Também há passagens muito violentas na Bíblia, mas alguns especialistas explicam que era a linguagem e a mentalidade daquele tempo, os costumes daquelas gentes, tudo isso, e que devemos centrar-nos nos aspectos intemporais. Mas no seu caso há uma atitude mais hostil, não acha?
Não, isso é uma incompreensão daquilo que eu digo. Porque eu, por exemplo, nunca critico um crente muçulmano.


É verdade.
Porque não discuto as pessoas, discuto as ideias.


Mas diz que a psicanálise é capaz de desmontar a crença religiosa…
Ouça, não falemos de coisas abstractas. Vivemos neste momento esta guerra no mundo árabe, com o Estado Islâmico. E o Estado Islâmico é um caso de violência inaudita. Degolam pessoas, vendem as mulheres como mercadorias. E a instituição muçulmana nunca falou disso. Houve críticas individuais, mas não institucionais. Porque o Estado Islâmico é apoiado pelas instituições. Pela Arábia Saudita, pelo Qatar. E ao mesmo tempo é apoiado pelas políticas europeia e americana. Eu digo mil vezes que o texto é uma leitura, e que tem muitas leituras, tal como os textos literários também têm múltiplas leituras. Mas é preciso ter estas nuances, senão há uma amálgama.

Por vezes temos esperança de que a chamada “rua árabe” se possa mostrar chocada com a barbárie. E tivemos esperança nas primaveras árabes. Mas sabe dizer-nos o que pensa ao certo a “rua árabe”?
A maior parte das pessoas são antirreligiosas. Mesmo na Arábia Saudita, onde os intelectuais, as mulheres e os artistas são antirreligiosos. Neste sentido de separação entre a religião e a política. É preciso tornar a religião apenas um assunto pessoal.

O cristianismo fez essa separação, e sobreviveu, mas o Islão…
O Islão ainda não conseguir fazer essa separação.

Mas acha que é possível?

É possível, porque é que foi possível no cristianismo e não seria possível no Islão? Os que fundaram o primeiro estado fundaram-no pela violência. E a religião era apenas um meio, e ainda hoje é um simples meio para o poder.

Em termos históricos, a Turquia tentou…
A Turquia foi o único país que tentou fazer essa separação, e fez bem, mas agora há uma revolução em sentido contrário. E ainda por cima os países ditos democráticos, os países ditos laicos, apoiam a Turquia contra Atatürk, contra o laicismo. É inacreditável. Portanto, não podemos compreender a situação no mundo árabe se nos abstrairmos do Ocidente. 


Ocidente que, como explica, se alia sempre ao poder...
Sempre ao poder e sempre ao obscurantismo. Não falo do povo americano, falo do regime. O regime americano está aliás fundado no extermínio de um povo, os índios. Não é um pormenor, fundar um regime no extermínio de todo um povo. Em segundo lugar, esse regime nunca esteve, em toda a sua história, do lado da libertação dos povos. Nunca. Em terceiro lugar, foi o regime que utilizou a bomba atómica. Por isso não podemos ter esperanças nessa política. Actualmente a América defende o terrorismo. Foram eles que inventaram a Al-Qaeda, não fui eu nem você, foram eles que criaram o terrorismo. Portanto, como é que podemos ser aliados desse regime? E é pena que a política europeia siga a política americana.

O que quer dizer quando afirma que o importante para os árabes não é reclamarem a História mas desembaraçarem-se da História?
Os árabes trabalharam dois séculos para laicizarem as suas sociedades. E o Ocidente foi sempre contra. Sempre. Porque para o poder ocidental é melhor falar com fundamentalistas, e é mais difícil falar com democratas [não admira que queiram importar muçulmanos para o Ocidente!] Assim, o problema atual do mundo árabe e do mundo muçulmano é também um problema ocidental. É um problema da cultura ocidental.

Historicamente, tem sido problemático decidir se o mundo árabe deve ou não seguir as ideologias e as formas políticas do Ocidente.
Não se trata de seguir as ideologias ocidentais. Os árabes apenas querem uma vida melhor. E para ter uma vida melhor é preciso conseguir a separação da sociedade e da religião. Eu não sou contra a religião. Defendo a liberdade e os direitos do homem, portanto não posso ser contra a crença de cada um. Mas acho que devemos ser contra qualquer religião institucionalizada e imposta pela força. E o Ocidente está contra nós quando diz que no Islão não se pode separar a religião da política.

Também se discute muitas vezes se os valores são ou não universais. E se a democracia funciona em todo o lado.
Isso é muito teórico. É preciso ver sempre a realidade. Teoricamente toda a gente diz que os valores humanos são universais. Mas veja o caso do Iémen, um país que foi destruído.

Evita-se falar disso para não incomodar a Arábia Saudita...
Claro. Mas é isso que é preciso ver. Toda a gente está contra os terroristas, mas na prática estão com eles.

Como viu a primavera árabe?
Fui um dos primeiros a escrever um livro sobre a primavera árabe [trad. fr. “Printemps arabes, religion e révolution”, Éditions de la Différence, 2014]. Acho que os ocidentais e os regimes fundamentalistas utilizaram as primaveras árabes, tal como utilizam a religião.
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O resto da entrevista centra-se na obra poética de Adónis, pelo que não me parece interessante reproduzi-la aqui. Quem quiser ler esse resto, pode encontrá-lo aqui. Não deixa de ser curioso que, no texto desta entrevista, a palavra "cristianismo" tenha sido escrita com letra minúscula, mas a palavra "Islão" tenha sido escrita com letra maiúscula...

2 comentários:

Leitora disse...

Será que é verdade que foi a "Igreja Católica" que inventou o Islã?

Afonso de Portugal disse...

Hum? Onde é que a Leitoria viu isso???