sexta-feira, 6 de julho de 2018

O Prof. João Pedro Marques arrasa a propaganda neomarxista da jornaleira Fernanda Câncio


     O Professor João Pedro Simões Marques (Lisboa, 15 de Junho de 1949) é um historiador e romancista português, especialista de renome mundial em História da Escravatura e da sua abolição. Neste seu artigo que fui buscar ao Observador da direitinha (podem 'clicar' à vontade, que não é premium), o Prof. Marques arrasa por completo uma croniqueta que a propagandista e guerreira da (in)justiça social Fernanda Câncio escreveu sobre a escravatura portuguesa:
«A jornalista Fernanda Câncio, que, em Abril de 2017, na sequência da ida de Marcelo Rebelo de Sousa à ilha de Gorée, no Senegal, foi uma das iniciadoras do debate em torno da questão da antiga escravatura, esteve longos meses alheada desse tema, mas regressou agora a ele num artigo publicado no DN, no qual fez duas afirmações enganadoras. Disse, nomeadamente,“que Portugal sozinho (…) foi responsável por quase metade dos 12,5 milhões de negros escravizados e traficados de África para as Américas entre 1501 e 1875”; e acrescentou que “o grosso desse recorde mundial decorreu entre 1826 e 1850, ou seja, já após a mítica abolição da escravatura por Pombal (1761)”.
Comecemos pelo fim. Há, da parte de Fernanda Câncio, um mal-entendido quanto ao alvará abolicionista de Pombal. O dito alvará nada tinha a ver com tráfico transatlântico, aplicava-se apenas a Portugal metropolitano. Mas não é mítico. Existiu e produziu efeito. Deixaram de se importar escravos para o território metropolitano e um alvará posterior (1773) extinguiu gradualmente o estado de escravidão em Portugal continental. Foram os primeiros passos no sentido da abolição que, no âmbito do império português, só décadas depois seriam continuados. Mas esses passos deram-se e não foram revertidos. Fernanda Câncio parece ignorar que as leis abolicionistas foram muitas vezes graduais e sucessivas, abolindo parcela a parcela. A própria Inglaterra, a incontestável campeã do abolicionismo, aboliu o seu tráfico de escravos em anos sucessivos e não de uma só vez. Fernanda Câncio parece ignorar, também, que na terminologia do século XVIII, a palavra escravatura significava geralmente tráfico de escravos (e não escravidão, como significa para nós). Daí, talvez, alguma da sua confusão.
Mas a mais importante e mais enganadora confusão de Fernanda Câncio é a que a leva a afirmar que Portugal terá sido o recordista de negros escravizados e traficados de África para as Américas, sendo que o grosso desse horrível recorde teria acontecido entre 1826 e 1850. A jornalista esqueceu-se que nesse período Portugal já não tinha colónias nas Américas. Como é do conhecimento geral, o Brasil tornara-se independente em 1825. O que quer dizer que o grosso do tráfico de escravos foi feito por e para um novo país chamado Brasil. Ou seja, não foi Portugal sozinho que escravizou e traficou 5,8 milhões de pessoas africanas. Muito menos foi Portugal sozinho que escravizou e traficou os 2,5 milhões de africanos que, no século XIX, atravessaram o Atlântico em direcção ao Rio, a Pernambuco, à Bahia. Foram Portugal, o Brasil e muitas entidades políticas africanas, que já tinham escravizado aquelas pobres pessoas antes de as venderem para a costa e, daí, para a coberta dos navios negreiros.
Dir-se-á que boa parte do tráfico de escravos realizado entre 1826 e 1850 foi levado a cabo por negreiros portugueses residentes em cidades brasileiras, homens como José Bernardino de Sá, Tomás da Costa Ramos, Manuel Pinto da Fonseca e vários outros; e que, num determinado período, entre os anos 1830-1840, esse tráfico foi em larga medida feito sob a protecção da bandeira portuguesa, que se obtinha no consulado português no Rio de Janeiro, por meios ilícitos e fraudulentos. Sim, é verdade que assim foi. Mas é igualmente verdade que o tráfico era feito com capital e gente de várias origens, com têxteis ingleses, em navios segurados em companhias de seguros europeias, etc. O tráfico nessa época envolvia pessoas e meios de muitas proveniências.
Para que se fique com uma ideia da complexidade e modernidade da actividade negreira no período em causa, valerá talvez a pena transcrever uma pequena passagem do livro de David Eltis, Economic Growth and the Ending of the Transatlantic Slave Trade: “No início de 1859, vários marítimos espanhóis e portugueses viajaram de comboio, de Londres a Hartlepool, um porto na costa nordeste inglesa, para aí receberem e tripularem o Wilhemina, um recém-construído navio a vapor. Navegaram nele até Cádiz e daí até à costa ocidental africana, onde adquiriram um carregamento de escravos que, depois, desembarcaram em Cuba. Nos quatro anos seguintes, este e outros vapores de construção inglesa fizeram várias viagens negreiras. Muitos desses navios eram propriedade de uma sociedade por acções com sede em Cuba e accionistas de várias nacionalidades. Tinha uma rede de agentes que ia de Nova Iorque a Quelimane. Os escravos levados para Cuba eram vendidos a produtores de açúcar que já utilizavam a mais sofisticada maquinaria de construção britânica, e o açúcar que produziam era vendido para os países mais desenvolvidos”.
Ou seja, no século XIX o tráfico transatlântico de escravos foi uma actividade multinacional, ligada a uma economia global e que se servia de tudo o que havia de mais moderno no mundo de então. Daí a enorme dificuldade em pôr-lhe fim, o que ainda assim se conseguiu, após décadas de esforços continuados de políticos, diplomatas e marinheiros europeus e americanos. Portugal teve uma pequena quota parte desse esforço. Mas foi um processo lento e complexo, e por isso o tráfico prosseguiu até à década de 1850, para o Brasil, e até à de 1860, para Cuba, apesar de já ser, em ambos os casos, ilegal.
Há dezenas de bons livros de História, escritos por historiadores competentes, onde qualquer pessoa pode aprofundar o seu conhecimento sobre esta matéria. Estranho, por isso, que Fernanda Câncio continue a reproduzir o mesmo mal-informado discurso, sem alterações assinaláveis de Abril de 2017 até agora. Fala em mitos e exige que se conte a verdadeira história, mas não parece estar a par da verdade histórica e não se dá conta de que ela própria perpetua mitos que invertem os mitos que diz combater. É interessante ver que no quadro quantitativo do tráfico transatlântico de escravos em que Fernanda Câncio se apoiou está bem explícito que se trata de números de Portugal e do Brasil, como pode verificar-se neste link. Mas, no seu artigo no DN, Câncio cortou a referência ao Brasil e Portugal ficou “sozinho” — como ela própria diz — no pelourinho da opinião pública. Estou convencido de que o corte da referência ao Brasil não foi intencional ou malicioso, com o propósito de manipular o leitor. Julgo, isso sim, que Fernanda Câncio o terá feito devido a uma mistura de desconhecimento dos factos e de preconceito ideológico.»

Eu não concordo com o Prof. Marques neste capítulo: o corte da Câncio foi, com certeza quase absoluta, malicioso e com o propósito deliberado de manipular o leitor. Porque o preconceito ideológico traduz-se no ódio figadal aos adversários políticos, mesmo que esses adversários sejam o próprio país em que se vive.
«E é sobretudo isso que estes quinze meses de debate sobre a antiga escravatura nos têm mostrado à exaustão: gente cheia de ideias apressadas, que mal conhece os factos de que fala e que tem toneladas de preconceitos ideológicos. O diálogo com essas pessoas é difícil e improdutivo, porque de um lado está o saber histórico e do outro a ideologia política e os preceitos morais.
Se o fito de Fernanda Câncio for esclarecer a opinião pública, então deve parar um pouco para se informar melhor. Mas se a sua intenção for flagelar Portugal, torná-lo responsável por muito do que de mau existiu na história, fazê-lo campeão das iniquidades, se o seu propósito for culpabilizar os actuais portugueses, fazendo-os crer que os seus antepassados eram invulgarmente nocivos e cruéis, então não precisa de se informar, é só continuar na mesma senda.»

Receio bem que ela vá continuar na mesma senda porque, de facto, quando lemos a quantidade de lixo que ela tem escrito no DN ao longo dos anos, só podemos concluir que o propósito dela nunca foi nem nunca será informar, apenas desinformar. Reescrever a História em nome da ideologia criminosa a que ela adere. O que ela está a fazer tem um nome: Teoria Crítica. Eu compreendo que o Prof. Marques não queira ir por aí, mas nós, nacionalistas, temos de perceber muito bem este conceito. Quem controlar a História controlará grande parte da nossa identidade. É por isso que os neomarxistas fazem tudo ao seu alcance por reescrever a História. Nós não podemos permitir isso. Todas as tentativas de refazer a nossa História para fazer dos portugueses uns monstros são criminosas e têm de ser implacavelmente combatidas!

4 comentários:

Ivan Baptista disse...

Artigo muito interessante, fiquei a saber algo mais em que nunca me foi contado!
E é tão simples como isto… uma é jornalista, e outro é historiador. As estórias hoje em dia é que são supervisionadas por historiadores como o Fernando rosas i.e...Que saudades tenho eu do professor José Hermano Saraiva, mas que saudades caramba!

Afonso de Portugal disse...

E mesmo o Prof. Hermano Saraiva -que era muito superior ao pseudo-historiador do Rosas- não era totalmente isento, caro Ivan. Eu lembro-me que, uma vez, ele disse num dos seus programas de televisão que o povo da península Ibérica não apoiava a Reconquista porque, segundo ele, "os mouros tratavam o povo bem". Só que isso não é verdade, os habitantes não-muçulmanos da península Ibérica eram cidadãos de segunda categoria e há muitos registos históricos que o demonstram. Por exemplo, no livro "The Myth of Andalusian Paradise" encontram-se vários exemplos de como os muçulmanos tratavam injustamente os não-muçulmanos, desde a imposição de vários impostos aos "infiéis", até à limitação de direitos de governo e de propriedade, com castigos horríveis para quem não respeitasse o seu lugar inferior na sociedade islâmica.

Ou seja, nem mesmo o Prof. Saraiva, um ex-ministro de Salazar, estava totalmente isento do vírus relativista. Isso diz-nos que temos de estar sempre muito atentos àquilo que se escreve sobre a nossa História!

Ivan Baptista disse...

Eu sei o que o Afonso quer dizer, sobre a invasão dos mouros á península ibérica, bom, com certeza que não foi só de uma forma pacifica.
Mas isso não me afeta em nada Afonso, o que me afeta mais, é aquela mania de "corrigir o que está mal".
Quanto á religiosidade de cada um, no contexto actual,como vivemos numa sociedade laica, ninguém está proibido de preferir ser-se mais Protestante do que Católico, Ateu ou Agnóstico e ou até mesmo pagão. Apesar de vivermos nesta ideologia secular(no sentido de estado secular, acho eu), notasse que há uma tendência meio estranha de se criminalizar a religião, principalmente a Católica. Não pratico nenhuma, mas qualquer pessoa vê isso.
Tudo o que é associado a padres e padrecos, bispos e etc... é pedofilia para cá, pedofilia para lá e não sei o que mais de etc… por outro lado, se alguém ousa falar sobre
islamismo, ou até mesmo judeus, é sinónimo de islamofobia e antissemitismo para cá e
islamofobia e antissemitismo para lá. Goste-se ou não se goste, parte da nossa identidade até há bem pouco tempo, era ou ainda é tradicionalmente culturalmente católica e não eramos na sua maioria, protestantes, evangélicos, Pagãos ou Ateus.
Parece que há uma tendência de se Odiar tudo o que seja Ocidente ou parte dele.

Afonso de Portugal disse...

«notasse que há uma tendência meio estranha de se criminalizar a religião, principalmente a Católica.»

Não é estranha, caro Ivan, essa estratégia de destruir a religião faz todo o sentido à luz do marxismo cultural. A religião dá sentido à vida de muitas pessoas no Ocidente, concede-lhes um propósito maior do que elas e do que esta vida. Além disso, a religião manda valorizar a família -o maior inimigo dos marxistas- e enaltece o trabalho e o espírito de sacrifício. Pior do que isso, a religião une as pessoas, o que é pura e simplesmente inaceitável para o esquerdalho, que quer ver os ocidentais alienados, revoltados e, sobretudo, isolados uns dos outros.


«islamismo, ou até mesmo judeus, é sinónimo de islamofobia e antissemitismo para cá e islamofobia e antissemitismo para lá. Goste-se ou não se goste, parte da nossa identidade até há bem pouco tempo, era ou ainda é tradicionalmente culturalmente católica»

É isso mesmo, o caro Ivan tocou no ponto crítico: a chave aqui é ser ou não ocidental. Se vem de fora, então é para promover. Se já cá estava, então é para destruir. A Teoria Crítica é isso mesmo, destruir o que é ocidental e promover ou ficar em silêncio em relação ao que é do resto do mundo, mesmo que seja demonstravelmente pior. Porquê? Porque o objectivo dos esquerdalho e da direitinha é destruir o Ocidente, torná-lo numa extensão do terceiro-mundo para depois poderem reinar sobre ambos, terceiro-mundo original e Ocidente terceiro-mundizado.