segunda-feira, 15 de maio de 2017

Uma ciência boa e socialista


Aqui fica uma crónica bastante  decente do Francisco José Viegas. Só é pena que estes escribas não se atrevam a traçar paralelos com muita da "ciência" que se faz hoje...

«Há inúmeras vantagens nas comemorações do centenário da Revolução Soviética – a primeira e mais importante de todas elas é sabermos que os "acontecimentos" ocorreram já há cem anos. Mesmo assim, cem anos depois da revolução bolchevique e pelo menos sessenta anos após as denúncias dos horrores do estalinismo, há aspectos que se assemelham a entremezes de comédia. 

Se as consequências não tivessem sido desastrosas e se a maior parte dos episódios não fossem manchados pelo sangue e pelos internamentos no Gulag, poderíamos rir, como aconteceu com Eric Ashby (1904-1992) e Julian Huxley (1887-1975, irmão de Aldous Huxley), dois cientistas não hostis à URSS, depois de escutarem – em 1945 – uma palestra do agrónomo e biólogo Trofim Lysenko (1896-1976), uma das grandes glórias da ciência soviética.»

Trofim Lysenko (1898-1976)... quantos Lysenkos haverá no Ocidente hoje em dia?

«As teorias de Lysenko sobre a hibridização (cruzamentos genéticos entre espécies vegetais ou animais) são um momento cómico da chamada "ciência socialista" e tinham em vista o aumento da produtividade agrícola, depois das fomes dos anos 30 e da destruição das propriedades agrícolas pelo comunismo. Estaline não só acreditava nas ideias estapafúrdias de Lysenko como o protegeu, autorizando perseguições em massa que destruíram as academias científicas (Lysenko foi presidente do Instituto de Genética até 1964) e a economia soviética. Ashby e Huxley puderam rir, mas os seus colegas soviéticos tinham de jurar fidelidade à genética e eugenia socialistas; para sobreviver, fizeram autocríticas ou foram deportados por não acreditarem na "biologia marxista"

O livro de Simon Ings não cai no alforge da "propaganda reaccionária": analisa o poder dos políticos comunistas sobre a ciência que, tal como a natureza, tinha de ser domesticada para bem dos povos e do socialismo. É uma obra-prima apaixonante, sobre a tentativa de modelar a humanidade ao gosto de um ditador tresloucado, Estaline. Com ele, a URSS promoveu uma ciência da pós-verdade: se não era "socialista", não era conveniente – e era fuzilada.»

O grande problema é que isto continua a acontecer nos nossos dias, apenas de uma forma muito mais encapotada. Há muita coisa que passa por ciência sem o ser, especialmente no domínio das "ciências" sociais e "humanas". Também aqui, a ciência e a natureza têm que ser domesticadas para bem dos povos e do... globalismo.

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