segunda-feira, 1 de maio de 2017

Mais uma excelente crónica da Helena Matos, provavelmente, a melhor jornalista portuguesa!


«Então não vão votar Marine Le Pen? Não está na altura de a França ter uma presidente mulher? Que avanço civilizacional esse de ter finalmente uma mulher presidente num país cujos presidentes além de serem invariavelmente homens se pautam por um marialvismo vistoso.

Sei que o domínio da língua francesa já conheceu melhores dias mas se fizerem uma pesquisa para “vie privée” Mitterrand, Chirac e Hollande creio que ficarão os estimados leitores com material qb para animar vários jantares de amigos e naturalmente todos concluírem que a França só se redime elegendo uma mulher.

Nada disto faz sentido, pois não? Entendamo-nos: boa parte do discurso sobre os direitos das mulheres produzido pelos seus alegados libertadores é uma pura treta que apenas serve para manter os ditos libertadores nas suas comissões e gabinetes e justificar ainda mais gabinetes e mais comissões.

Aliás, muito sintomaticamente, o que os ditos libertadores fazem ao primeiro susto é atirar logo pela janela fora os direitos das mulheres. Assim, e numa breve leitura de notícias recentes tendo como protagonistas alguns auto-denominados progressistas, descobre-se que o presidente da Áustria, Alexander Van der Bellen, considerou que algum dia “ainda teremos de pedir a todas as mulheres para cobrirem as suas cabeças de forma a combatermos a islamofobia”.

Podia o senhor Alexander Van der Bellen ter dito que deixava de consumir bebidas alcoólicas ou não mais trincava um daqueles rutilantes assados de carne de porco para combater a islamofobia. Mas não, pareceu-lhe mais simples que as mulheres cobrissem as suas cabeças.

Mas temos mais. Para que os transgender, as pessoas que não sabem de que sexo são e todas as demais variantes mediaticamente possíveis desta circunstâncias não se sintam discriminados nas casas de banho públicas temos agora como sinónimo de progressismo as casas de banho unisexo ou a transformação da casa de banho das mulheres num espaço polivalente a ser frequentado pelas mulheres e por quem assim se sinta. Ambas as possibilidades retiram conforto e segurança às mulheres mas adiante que pode haver pior. Por exemplo, deve ou não usar-se a expressão mutilação genital feminina? Dado o carácter da intervenção é óbvio que estamos diante de uma mutilação e dificilmente se concebe algo de mais grave para as mulheres do que essa prática.

Mas eis que afinal pode não ser bem assim: a descoberta no Minnesota (que convém não esquecer está localizado nos EUA) de uma menina de sete anos que fora vítima de mutilação genital levou as autoridades (dos EUA, repito) a descobrir que uma médica, de seu nome Jumana Nagarwala, praticava mutilações genitais. O caso tem contornos graves não apenas pelo que revelou – algumas notícias referem que Jumana Nagarwala poderá ter começado a fazer mutilações genitais há doze anos – como pela polémica que gerou: o New York Times usou o termo corte genital e não mutilação. Porquê? perguntaram alguns leitores.

A resposta de Celia Dugger, editora de Ciência e Saúde daquele jornal, remete para as diferentes perspectivas que têm perante essa prática os povos que a seguem – habitualmente em África – e os ocidentais que a condenam. Ao usarmos o termo mutilação estamos já a condenar. Ao usarmos corte estamos apenas a descrever o gesto.

O horror a emitir qualquer juízo de valor faz com que vivamos uma fase de verdadeira purga das palavras; na verdade faz tanto sentido não usar a expressão mutilação genital para não chocar as populações provenientes de África quanto não usar o termo homicídio mas sim atravessamento com faca para dar conta das mortes provocadas pelas maras sul-americanas, nomeadamente nos seus rituais de admissão.

Comum às sugestões do presidente da Áustria, dos activistas das casas de banho e da escolha das palavras por parte do New York Times é a ideia de que a tolerância perante os outros implica que temos de abdicar dos nossos valores e que, como de costume, as mulheres podem ser as primeiras porque como todo o bom machista sabe as mulheres raramente fraquejam quando se lhes pede que sejam exemplares.

Quanto à candidatura de Marine le Pen pelo menos deve ter servido para se acabar de vez com a mania da “primeira mulher a”. E já agora a candidatura de Macron serviu para que os jornalistas descobrissem que as mulheres têm menopausa: “menopausal Barbie” chamou, citando um humorista, à mulher de Macron. o mesmo New York Times. Claro que a menopausa existe mas a mutilação genital também.»

2 comentários:

Bilder disse...

O Pereira Coutinho diz(num dos seus artigos)que terão de haver mais cinco anos de decadência e terrorismo para Le Pen(ou alguém similar)ganhar http://www.cmjornal.pt/opiniao/colunistas/joao-pereira-coutinho/detalhe/bicos-calados?ref=joao-pereira-coutinho_outros

Afonso de Portugal disse...

Eu estou bem mais pessimosta do que ele. Daqui a 5 anos até pode haver mais descontentamento, mas também haverá mais "jovens" para votar no adversário de Marine.

Claro que o Coutinho não deixa de ter razão em relação à hipocrisia do Bloco de Esterco, mas atenção: ser anti-UE não é ser anti-europeísta; ser anti-capitalista não é necessariamente ser pró-marxista; da mesma forma que ser anti-liberalista (que é como quem diz, globalista) não é necessariamente ser ultra-estatista. Mas sobretudo, o que separa o BE da FN são as questões em torno da identidade, da imigração e do mundialismo. E dessas, o Coutinho nem fala!