segunda-feira, 15 de maio de 2017

Da irreligiosidade do Reino Unido


Esta notícia está a fazer bastante furor nos meios nacionalistas, na medida em que está a ser interpretada como (mais) uma prova do declínio do Ocidente:

«De acordo com o relatório "A População 'Sem Religião' da Grã-Bretanha", da autoria de Stephen Bullivant, um professor de teologia e sociologia da Universidade de Santa Maria, em Twickenham, quase metade dos britânicos declaram-se não-religiosos. O documento revela que os irreligiosos já representam 48,6 % da população total da Grã-Bretanha. 


No entanto e apesar de tendência geral para a secularização ['tendência geral' que pode ser revertida em função da evolução da demografia, coisa que estes relatórios nunca dizem], os dados mostram que há números recorde de pessoas que professam religiões não-cristãs, em particular o Islão e o Hinduísmo. A percentagem de britânicos que se identificam como cristãos caiu de 55 % em 1983 para 43% em 2015. Em contraste, o número de crentes muçulmanos e hindus quadruplicou. 

(...)  O número de irreligiosos ultrapassou o número de cristãso em 2009.»


Ora bem, os meus leitores cristãos não vão gostar nada do que eu vou escrever a seguir, mas o grande problema aqui não é tanto a perda de influência do Cristianismo, a religião que manda amar o inimigo; o grande problema é que o vazio deixado pelo Cristianismo não está a ser preenchido por um conjunto de valores morais e ideais transcendentes que permitam inspirar os britânicos na sua vivência diária e, mais importante, enquanto comunidade, assegurando a continuidade da Nação. Ou, em palavras mais simples, à medida que o Cristianismo sai de cena, prevalecem o individualismo, o materialismo e o secularismo "humanista".

Só que nem o individualismo, nem o materialismo, nem o secularismo "humanista" dispõem das ferramentas necessárias para inspirar os povos a trabalhar para o bem maior da comunidade. Muitas vezes, essas coisas não inspiram as pessoas sequer a trabalhar para o seu próprio bem! A procura de um desígnio transcendental maior é, quer as elites queiram, quer não queiram, uma necessidade da esmagadora maioria dos seres humanos. E esse desígnio maior desaparece com a queda do Cristianismo!

Que soluções haverá para este problema? Alguns nacionalistas preconizam o regresso ao Paganismo, mas eu não acredito que isso seja possível, por estar convencido que o darwinismo se aplica às religiões: massacres à parte, o Cristianismo venceu o Paganismo no passado porque um só Deus omnipotente é muito mais assustador e difícil de contestar do que vários deuses antropomórficos. Outros nacionalistas, em especial os brasileiros, encontram a solução na conversão do Ocidente ao Islão, uma religião muito mais aguerrida do que o Cristianismo. O seu erro é por demais evidente: o Islão é uma religião universalista que ambiciona à conversão do mundo inteiro. Sob o Islão, o Ocidente não teria forma de evitar a mestiçagem e a destruição de sua herança cultural milenar.

A meu ver, a perda da religião é inevitável a longo prazo e só tem uma solução: substituir a crença no Além pela crença na Nação. Será possível? Não sei... mas nenhum povo resiste muito tempo se não acreditar que serve um propósito maior. Na ausência de Deus, só resta mesmo lutar pela Nação, uma entidade verdadeiramente transcendente no sentido em que engloba não apenas aquilo que somos agora mas também a herança material e imaterial que herdámos dos nossos gloriosos ancestrais.

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