terça-feira, 16 de maio de 2017

A traição aos Portugueses em números concretos (98)


Deixo aqui seis breves noticias dos últimos meses que nos mostram o quão frágil é a momento económico recentem e a importância de não entrar em euforias:

 I. Quase 2,6 milhões de portugueses em risco de pobreza e exclusão social em 2016 (fonte)

«Quase 2,6 milhões de portugueses estavam em risco de pobreza ou exclusão social em 2016, menos 1,5 pontos percentuais que no ano anterior, apesar de um aumento de 79 euros no rendimento mensal das famílias.


Os números estão no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento feito pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), que contou 2,595 milhões de pessoas, entre as quais 487 mil com menos de 18 anos e 468 mil com mais de 65, em risco de pobreza e com outros problemas daí decorrentes.

Casas com falta de divisões habitáveis, sem casas de banho, apertadas e escuras são os problemas nas condições de vida que mais afectam famílias com crianças que se contam entre os que estão em risco de pobreza. De 2015 para 2016, o rendimento médio disponível por família aumentou 79 euros, para 1.497 euros por mês, ou seja, 17.967 euros anuais. O valor de 2015 esteve ao nível de 2008.»




II. Em 2015, Portugal foi o país da OCDE que mais aumentou a carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos (fonte):

«Portugal foi o país da OCDE que mais aumentou a carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos em 2015, com a organização a afirmar que a introdução do crédito fiscal nesse ano tirou progressividade à tributação do trabalho.

Num relatório sobre reformas fiscais em 2015, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) conclui que, "depois de vários anos de aumentos anuais", a carga fiscal sobre o trabalhou estabilizou na média dos países da organização. No entanto, no que diz respeito aos trabalhadores com baixos rendimentos, a carga fiscal sobre o trabalho "baixou ligeiramente" entre os países da OCDE, uma redução que acabou por ser pequena, por ter sido anulada pelo aumento num conjunto de países, que Portugal lidera.

Segundo a organização sediada em Paris, o aumento da carga fiscal para os trabalhadores com baixos rendimentos cresceu perto de 1,5% em Portugal entre 2014 e 2015, liderando a tabela, enquanto na Áustria (a segunda maior subida) ficou perto de 1% e no Luxemburgo (terceira maior subida), que a OCDE também destaca, pouco acima de 0,5% 

"O aumento da carga fiscal sobre os trabalhadores com baixos rendimentos foi particularmente elevado em Portugal, onde o sistema de crédito fiscal foi tornado menos progressivo", afirma a OCDE no relatório divulgado hoje.

(...) De acordo com o relatório da OCDE, Portugal ocupa também os primeiros lugares da tabela (é quarto) entre países que mais aumentaram o peso dos impostos no Produto Interno Bruto (PIB) entre 2010 e 2014, em linha com a Grécia, com uma subida de perto de 4 pontos percentuais. Apenas a Dinamarca e a Islândia registaram aumentos superiores, entre os 5 e os 5,5 pontos percentuais


III: Em 2015, Portugal  desceu oito lugares no ranking de competitividade (fonte)

«Portugal desceu este ano oito lugares, de 38º para 46º, no ranking mundial da competitividade do World Economic Forum, relativamente a 2015. De acordo com dados do Relatório Global de Competitividade (2016-2017) do World Economic Forum, Portugal passou para o 46.º lugar do ranking da competitividade, num universo de 138 países.

As taxas e os impostos são apontados no documento como o factor mais problemático (18%) para os negócios e são também a primeira preocupação manifestada pelos empresários.»


IV. Em Agosto de 2016, havia 72 mil licenciados inscritos nos centros de emprego (fonte)

Em Agosto [de 2016] estavam inscritos nos Centros de Emprego 10 593 casais em que nenhum dos cônjuges tinha trabalho. É uma subida de 72 casais face ao mês anterior. Os dados revelados pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) mostram ainda que estavam registados um total de 468 mil desempregados.

Os licenciados continuam a marcar lugar nas filas dos centros de Emprego, com 72 mil inscritos. São mais 4% face a Julho. Mas mesmo entre os licenciados há diferenças. As mulheres com estudos superiores constituem dois terços deste universo, representando mais de 47 mil casos, contra os mais de 24 mil homens ‘com canudo’ e sem trabalho.

A licenciatura há muito que deixou de ser uma garantia de emprego e acabar os estudos sem perspectivas de trabalho começa a ser cada vez mais um motivo para estar inscrito no IEFP. Em agosto, foi a segunda justificação mais dada para estar na fila do Centro de Emprego (5875 casos), ultrapassada apenas pelo fim do contrato a termo: 20 983 casos.»


V. FMI diz que o declínio previsto para a população portuguesa pode insustentabilizar a dívida (fonte

«O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que a diminuição da população portuguesa pode aumentar a despesa pública em sete pontos do PIB, representando uma "ameaça séria" não só às finanças públicas mas também à sustentabilidade da dívida.

"O declínio previsto para a população de Portugal representa uma ameaça séria às finanças públicas portuguesas. Nesse cenário, a despesa pública relacionada com o envelhecimento aumentaria mais de sete pontos percentuais do Produto Interno Bruto (PIB) e a dívida pública tornar-se-ia insustentável", afirma o FMI num relatório sobre os impactos adversos do desenvolvimento demográfico em Portugal divulgado esta quinta-feira.

Este relatório parte de projecções das Nações Unidas (ONU), que prevêem que a população de Portugal diminua 29% entre 2015 e 2100 -- quase três vezes mais do que a média da zona euro (9%). Neste cenário, o FMI admite que a despesa com o envelhecimento aumente 6,1 pontos percentuais do PIB até 2050 e 7,4 pontos percentuais até 2100.

A maior parte dessa despesa seria feita com saúde - 5,8 pontos percentuais do PIB em 2050 e 8 pontos em 2100 -, o que representa "o maior rácio de despesa com saúde face ao PIB" perante os países comparáveis (como Espanha) e "uma grande diferença face à média da zona euro".

Já no que diz respeito aos gastos com pensões, o FMI admite que a despesa aumente até 2035, em 1 ponto percentual (acima dos 0,6 pontos da média da zona euro), começando a diminuir gradualmente a partir desse ano, "à medida que as reformas recentes comecem a gerar poupanças orçamentais significativas", mas, mesmo assim, deve "permanecer largamente acima da média do euro".»


VI. Portugal fechou o ano de 2016 com uma dívida pública de 241,1 G€ (fonte); em Março, ela tinha aumentado para 243,5 G€ (fonte)

«Portugal fechou 2016 com 241,1 mil milhões de euros de dívida pública, mais 9,5 mil milhões que em 2015, avançou o Banco de Portugal (BdP) dia 1 de Fevereiro. O valor do PIB nominal do ano passado ainda não está fechado, mas as últimas previsões permitem apontar para que o peso da dívida pública na economia fique próximo dos 129,7% do PIB previstos pelo governo em Outubro.


A confirmar-se, registar-se-á uma subida da dívida pública bruta face aos 129% de 2015. Num momento em que Portugal se encontra pressionado pelas elevadas taxas de juro no mercado, o Governo argumenta que o aumento do endividamento se deve ao pré-financiamento do montante necessário para recapitalizar a Caixa Geral de Depósitos. Como a operação derrapou para 2017, registou-se um aumento de depósitos.»

«A dívida pública aumentou em Março para 243,5 mil milhões de euros, aumentando 23 milhões de euros face a Fevereiro e cerca 10 mil milhões face ao mês homólogo do ano passado, divulgou o Banco de Portugal (BdP).»

Tudo isto para dizer o seguinte, caros leitores: o optimismo que grassa em Portugal com o recente aumento do PIB trimestral não leva em conta que: (1) a nossa dívida pública continua a aumentar, (2) a nossa população continua a envelhecer, (3) Portugal continua a não ter um parque industrial que lhe permita assegurar a sua sustentabilidade económica a longo prazo, nem parece haver ninguém no governo preocupado com essa lacuna crónica. Ou seja, os problemas crónicos deste país desde o 25 de Abril continuam por resolver e, pior do que isso, tendem a agravar-se a longo prazo!...

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Ver também:


ATAPENC (93): Olha que "surpresa", a dívida pública portuguesa voltou a aumentar! (e vão 244,4 G€)
ATAPENC (92): Olha que "surpresa", a dívida pública portuguesa voltou a aumentar! (e vão 243,3 G€)
ATAPENC (91): Olha que "surpresa", a dívida pública portuguesa voltou a aumentar! (e vão 233,0 G€)
ATAPENC (87): Olha que "surpresa", a dívida pública portuguesa voltou a aumentar! (e vão 231,3 G€)

ATAPENC (89): Bruxelas diz que Portugal precisa de mais austeridade
ATAPENC (57): Portugal voltou aos níveis de pobreza e exclusão social de há 10 anos
ATAPENC (48): os Portugueses estão cada vez mais velhos e mais pobres
ATAPENC (42): só em 2013 emigraram 110 mil portugueses
ATAPENC (40): Portugal vai ter quebra de 40% de população jovem
ATAPENC (37): número de portugueses emigrados em Espanha ascende a 39 552
ATAPENC (33): 70% a 80% dos portugueses estão dispostos a emigrar
ATAPENC (27): Portugal perdeu quase meio milhão de jovens na última década
ATAPENC (20): Portugal tem a taxa de fecundidade mais baixa da Europa
ATAPENC (11): entre 100 e 120 mil portugueses saíram do país em 2013
O Costa das Índias quer que os árabes comprem dívida portuguesa!
Ferreira Leite: "Dívidas dos países europeus não são pagáveis"
Um capitalista selvagem diz algumas verdades sobre Portugal 

3 comentários:

Anónimo disse...


Eles querem lá saber da pobreza dos portugueses, o que os preocupa é isto:
"http://rr.sapo.pt/noticia/83759/portugal_recebeu_um_decimo_dos_refugiados_previstos_carlos_coelho_questiona_quem_esta_a_falha.
Portugueses acordem.

Afonso de Portugal disse...

Agradeço a hiperligação, anónimo. Vou ver se faço uma posta sobre isso...

Afonso de Portugal disse...

Ah, esqueci-me de pedir para assinar o seu comentário da próxima vez. Eu normalmente não publico comentários puramente anónimos.

Não tem que assinar com um nome, basta uma alcunha. É só para eu saber que é consigo que estou a falar da próxima vez que vier aqui!